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“Que o dinheiro não seja um empecilho para compartilharmos arte”

in Ed_3_abr/jun.2017 por

Praça Roosevelt, centro de São Paulo, quarta-feira à noite. Pizzas anunciadas a dez reais dentro de malas térmicas por ambulantes, bebidas vendidas  em sacos plásticos com gelo — os comerciantes diziam “aceito também cartões” — o que me fez pensar na modernidade do negócio inusitado — e várias pessoas tomando cerveja ou vinho, sentadas nas escadas ao redor da praça, conversando.

Em meio à música animada que saía de uma grande caixa de som colocada no chão, havia uma trupe circense, treinando com seus malabares e monociclos. Ali paramos, eu e algumas integrantes da CIA Bambolística — grupo voltado às práticas do bambolê —  para mais uma aula semanal. O clima era quente e a animação da turma empolgava algumas pessoas que aguardavam o início da aula, prevista para às 19h. Dois carrinhos cheios de bambolês de todos os tamanhos, cores e psicodelias acompanhavam as meninas.

Após nossa chegada, os carrinhos foram colocados de lado e os bambolês espalhados no chão, ao livre acesso das pessoas. Enquanto aguardávamos a chegada de mais gente, eu observava o treino e aquecimento das bambolistas. Elas não ficavam paradas um minuto sequer. Mariana era a mais agitada. Pulava e dançava, fazendo movimentos com todo o corpo, fruto de mais de seis anos de dedicação, estudo e treino. Tentei imitá-la, mas só consegui fazer alguns movimentos com o bambolê na cintura.

A aula finalmente começa, com aproximadamente 20 alunas e transeuntes que pararam por curiosidade. Uma roda é feita, na qual as integrantes da CIA e as alunas desajeitadas se misturam, tentando aprender a manter o bambolê na cintura por meio do rebolado. Algumas são mais habilidosas; outras já praticam há mais tempo, são frequentadoras das aulas semanais e portam seus próprios bambolês, executando movimentos aprendidos nas semanas anteriores, sempre com a supervisão de uma das bambolistas.

Larissa Violeta, com seu vestido florido, legging e botas, colar de cristais e um penteado inusitado, apresenta o grupo:

— Nós somos da CIA Bambolística e viemos dançar com vocês hoje e ensinar algumas técnicas do bambolê. Se soltem e se entreguem à essa energia.

Todas se aproximam e ficam em pé com as mãos entrelaçadas, formando um círculo. Após o aquecimento, as meninas da CIA se dividem e começam a se revezar entre as alunas que estavam bamboleando sem parar. Até algumas crianças começam a brincar. O vento da noite sopra forte, e as meninas, usando roupas de verão, começam a fazer movimentos mais rápidos. Enquanto observo a aula, vejo as bambolistas se revezando com cada grupo de alunas.

Larissa Lima e Larissa Violeta ensinam movimentos básicos — como girar o bambolê pelo ombro — enquanto Mariana ficou com as alunas mais habilidosas — as que pareceram ir sempre às aulas — ensinando alguns truques mais complexos, como levantar o bambolê do chão sem as mãos. Cerca de duas horas depois, a aula chega ao final.

Outra roda é feita, semelhante à do aquecimento. No meio da roda está o chapéu em estilo country, todo rosa com lantejoulas, que aguarda o recebimento de contribuições. A quantia arrecadada é o pagamento da aula das bambolistas. A contribuição mínima é de R$ 15,00; a boa é de R$ 20,00 e a ideal de R$ 25,00, mas as pessoas podem contribuir com qualquer quantia. A dança ao redor do chapéu é para atrair prosperidade, então elas tratam de dançar muito. Larissa Violeta vai se despedindo das alunas em nome de todas as integrantes.

— Nós agora vamos jogar todos os bambolês para o alto e imaginar que estamos jogando todos os nossos problemas e coisas ruins que não queremos mais para nossa vida. Um, dois, três…

Todos os bambolês são jogados para cima; alguns fotógrafos aproveitam para registrar o momento. A cena é realmente muito bonita. Após a queda dos vários arcos coloridos, Larissa recomeça a fala:

— Nós vamos deixar agora o chapéu para as contribuições, mas quem não puder, não tem problema. Aceitamos também trocas por roupas, artesanato ou comidas vegetarianas. Que o dinheiro, que serve apenas como moeda de troca, não seja um empecilho para compartilharmos arte.

Gostei muito da frase dela. O dinheiro, embora seja importante, não é o principal, não é o que as move. Aos poucos, o chapéu  se enche de notas de cinco, dez, 20 e até 50. Algumas alunas aproveitam também para levar um bambolê para casa.

Origens do bambolê

O bambolê surgiu no Egito Antigo, quando as crianças já brincavam com grandes argolas, mas ficou famoso em meados de 1958, quando uma fábrica americana de brinquedos lançou o primeiro modelo comercializado, que se chamava Hula Hoop. No Brasil, a responsável pela propagação do modelo foi a Estrela, que batizou o objeto de “bambolê” em referência à palavra bambolear — que quer dizer gingar — e de lá para cá ele tornou-se brinquedo de milhares de crianças. Pelo menos foi sempre assim que eu o enxerguei até conhecer as meninas da companhia e descobrir que essa prática vai muito além de ficar girando o bambolê na cintura. Quando as vi pela primeira vez na Avenida Paulista em um domingo juntamente com a banda Picanha de Chernobill, imaginava que todos aqueles bambolês coloridos pendurados em araras eram só para crianças. Não podia estar mais enganada.

Assim como eu, muitas pessoas ainda não conhecem os benefícios que essa atividade pode trazer para o corpo. A CIA Bambolística trabalha e usa o bambolê em suas aulas e oficinas como uma técnica de autoconhecimento e percepção corporal. Quando você o utiliza, está em contato com todo o seu corpo por meio de uma série de movimentos. Mais do que um exercício, a atividade é uma dança ao mesmo tempo solta, sutil e precisa.

Nos anos 90, o grupo de axé É o Tchan ajudou a popularizar o bambolê em uma música que falava sobre o objeto:

 

Vem na pegada do bambo, do bambo,

bambo, do bambo do bambolê

 Você pode sambar com um bambolê

É só se ligar pra você aprender (…)

 

O grupo era um sucesso. Não tinha quem não gostasse ou não dançasse ao som dos baianos, tentando imitar as coreografias interpretadas por Carla Perez, Sheila Mello e Scheila Carvalho.

Eu era uma delas. Lembro do bambolê do grupo, desmontável, com peças nas cores azul, amarelo e rosa. A música citada se dançava justamente com esse “Bambotchan”. Após o estouro e popularização, o produto foi sumindo aos poucos, e meu contato com o bambolê só se deu novamente quando conheci Mariana e sua irmã, Desire.

Confesso que nunca tinha visto a prática do bambolê por adultos ser encarada como uma atividade mais séria ou consequente. Em pesquisa no Observatório de Turismo da Cidade de São Paulo, produzido em parceria com a SPTuris, com levantamento e pesquisa do perfil dos artistas de rua, a atividade de bambolear sequer é citada.

Surgimento da CIA Bambolística

A CIA Bambolística é composta por Larissa Violeta, Larissa Lima, as irmãs Mariana e Desire Gonzalez, Érica Ribeiro e Giovana Rodrigues. Com idades entre 21 e 27 anos, essas meninas têm o sonho em comum de levar a dança para todos os cantos. A CIA começou a tomar forma em meados de 2014 quando Mariana, Giovana e outra amiga se conheceram em intervenções artísticas na cidade. Inicialmente, a ideia era divulgar a dança com o bambolê.

O contexto de formação da CIA envolve também a ocupação do Ouvidor 63, há dois anos, quando Mariana, juntamente com cerca de 80 artistas (muitos deles vindos do Sul em um ônibus, como uma espécie de caravana, todos juntos), ajudou a ocupar artisticamente um prédio do Governo do Estado que estava abandonado, na Rua do Ouvidor, 63, Centro de São Paulo (próximo do Terminal Bandeira e do fatídico Edifício Joelma — conhecido agora como Praça da Bandeira). O projeto, denominado “Ocupa Ouvidor 63”, tinha por objetivo transformar o prédio em um Centro Cultural que abrangesse diversos tipos de manifestações artísticas, e hoje já é reconhecido como a maior ocupação artística da América Latina. Esse prédio foi escolhido justamente por abrigar, anos antes, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Depois, serviu como moradia irregular para algumas famílias por mais alguns anos, até ser desocupado e permanecer trancado. Por estar abandonado durante um bom tempo, o prédio estava sem luz e com muita sujeira. Os artistas ocupantes não só colocaram eletricidade em todo o prédio, como limparam os 12 andares, começando pelos primeiros.

Foi no Ouvidor que Mariana e Giovana encontraram um espaço para as aulas de bambolê e oficinas, quando o prédio já estava ocupado pelos artistas. Ali também era um local onde podiam dançar e treinar. No dia em que fui conhecer o local acontecia a 1ª Bienal do Ouvidor e, por conta disso, me deparei com muitas manifestações artísticas, tanto dentro como fora do edifício. A entrada do prédio é toda colorida, mas isso não disfarça a aparência antiga e os sinais do abandono. No chão de asfalto da rua, podia-se ler um enorme OCUPA OUVIDOR 63 escrito com giz — a frase podia ser vista melhor dos andares de cima. Em frente ao local também estavam alguns artistas se apresentando e algumas araras de roupas de brechó para venda.

Sem elevadores, os andares são acessados por escadas circulares que ficam no final do corredor, no térreo. Na entrada, há algumas fotos e frases na parede, que são ‘ligadas’ através de antigos filmes fotográficos. Essa ‘linha do tempo’ conta a história do “Ocupa Ouvidor” até os dias atuais. Havia também algumas fotos de moradores do prédio e artistas que estavam expondo seu trabalho na Bienal. Como reformas são muito caras, os ocupantes fizeram o que podiam para tornar o local mais habitável; desse modo, pintaram e desenharam em paredes, colocaram quadros e cartazes, enfeites de todo o tipo.

Subi e conheci até o quarto andar. Percebi que os andares de cima não se diferenciavam tanto. Como é um prédio antigo, alguns locais são bem escuros — as escadas para acessar outros andares, por exemplo, são mal iluminados. Também havia alguns pontos de infiltração. O prédio ainda está em situação irregular; o atual governador, Geraldo Alckmin, tentou entrar em contato com os ocupantes, mas depois do primeiro contato, não deu mais notícias, pelo menos até outubro de 2016, quando escrevo este capítulo.

Encontrei Mariana no quarto andar para nossa conversa sobre a CIA Bambolística. Sentada calmamente no chão, desenhava figuras geométricas com um lápis em um pedaço de tábua de madeira. Ela também estava fazendo desenhos em xilogravura — técnica de gravuras em relevo, usando, para isso, pequenas facas ou estiletes. Com as pernas cruzadas, vestindo uma blusa vermelha, um short largo e chinelos, Mariana estava diferente daquela personagem fantasiada e hiperativa das ruas. Depois de um tempo, Desire chegou. Embora a CIA Bambolística seja composta por seis integrantes, decidi focar somente em Mariana e Desire, com quem eu passei mais tempo e também por Mariana ser uma das fundadoras do grupo.

Descemos até o terceiro andar, onde Giovana estava aguardando algumas pessoas para uma oficina de bambolê que ela daria um pouco mais tarde — a oficina fazia parte da série de atividades da semana na Bienal. Na sala onde estava, com o solo forrado por coloridos tapetes emborrachados que se encaixavam como um quebra-cabeças gigante, vários bambolês decoravam o chão. Ali sentamos, Mari, Desire, Giovana e eu, para uma conversa informal. Sobre a origem da CIA, Giovana conta:

— Eu morava no Estúdio Lâmina antes de me mudar pra cá. Lá, conheci a Mariana e o bambolê, e eu comecei a me interessar pela dança, até que passei a aprender com ela, e depois nós duas tivemos a ideia de formar a CIA Bambolística junto com a Anaís (uma amiga em comum que ajudou a fundar a CIA). Meu pai até hoje não entende o que eu faço, não sei dizer se ele gosta ou não. Ele diz que pra eu me tornar artista, eu deveria fazer uma faculdade de Artes, essas coisas. Já a minha mãe gosta e apoia. Ela sempre foi meio hippie, então entende e acha bacana o que eu faço, o que eu escolhi pra minha vida.

Mariana e Desire são mexicanas, e suas histórias com o bambolê começaram em meados de 2010.

— Nossa tia nos deu dois bambolês de natal, no México. A gente voltou e Mariana ficou ‘fritando’ (treinando) no bambolê todo dia… Depois foi ‘mó rolê’ pra entrar com o bambolê no aeroporto lá no México, o pessoal achava que tinha droga dentro do bambolê e fizeram a gente desembrulhar todo ele, torcer, apertar, pra realmente mostrar que não tinha nada.

Realmente, para Mariana o bambolê foi amor à primeira vista.

— Eu não esperava, me apaixonei. Eu fui pesquisando, vi que era uma atividade física que também era uma dança, e ai eu comecei a produzir alguns bambolês para as minhas irmãs, para minha mãe, para as amigas, e comecei a levar nas festas. Todo mundo ficava louco, todo mundo queria brincar e nisso eu fui crescendo cada vez mais…

Ela começou, então, a praticar e assistir aulas, através de vídeos no Youtube, para se aperfeiçoar. É nítida sua habilidade, leveza e desenvoltura. Às vezes utiliza um, dois, três ou até quatro de uma vez, bem como os bambolês de fogo. Desire, sua irmã, também pegou gosto:

— Ela começou a treinar e eu comecei a gostar também. Ela já tinha saído da escola e tinha mais tempo e eu não, então eu levava o bambolê na escola e ficava dançando no intervalo. Todo mundo na escola queria, mas ninguém tinha coragem de falar ou pedir.

As irmãs vieram para o Brasil há cerca de 16 anos. Questionadas se voltariam a morar no México, elas disseram que não, mas estão sempre visitando o país natal. De início, pode-se perceber que não são brasileiras pelo sotaque meio embaralhado. Entre elas, as conversas são sempre em espanhol e, quando faziam isso, eu raramente entendia o que estavam falando. Mas falam bem o português.

Ainda Desire narrando:

— Minha mãe se casou com um francês quando nós éramos pequenas, aí nos mudamos para o Brasil. Eu tinha oito anos e a minha irmã nove. Nós viemos porque minha mãe queria uma vida melhor, nos dar boa educação. A gente ficou um tempão aqui, depois fomos todos para a França e ficamos dois anos lá. Voltamos para o Brasil, e com as brigas, minha mãe se separou do meu padrasto e voltou para o México, e nós ficamos.

As irmãs moram no mesmo prédio que os guris da Picanha de Chernobill, no mesmo andar onde fica localizado o Estúdio Lâmina. O quarto delas é pequeno e apertado pela quantidade de coisas. Uma arara com roupas substitui o guarda-roupa. Na parede, vários bambolês pendurados, um violão, colares, artefatos indígenas e mexicanos e filtros dos sonhos. Uma prateleira exibe memórias do México, como garrafas de tequila, esculturas e as típicas caveiras mexicanas.

Ao lado da porta há uma lousa com anotações da companhia, como dias e locais de apresentações, além de um iMac, usado para acessar a página da CIA Bambolística no Facebook. A página é a principal ferramenta de comunicação do grupo com suas alunas e simpatizantes, e lá são divulgados eventos e oficinas. As aulas regulares na Roosevelt também são anunciadas através da página, bem como o cancelamento ou a mudança de local. Por questões financeiras, elas vão deixar o Estúdio Lâmina para morar em Osasco, com outra amiga.

Na maioria das apresentações, as irmãs levam carrinhos com bambolês amarrados e uma arara desmontada que serve para pendurar os que não estão sendo usados ou os que serão vendidos. São carrinhos de mão, pequenos, destinados apenas ao transporte dos bambolês. Como eles não cabem no quarto, ficam no corredor. Praticamente todos os acessórios e instrumentos de trabalho da CIA ficam com as mexicanas.

As bambolistas fazem parte de um dos poucos grupos, ou senão o único, que se dedica à arte do bambolê em São Paulo, onde podem participar adultos e crianças em uma mistura de exercício, descontração e brincadeira. “Depois que a gente começou eu vi vários grupos de bambolê nas ruas, e antes eu não via nenhum”, declara Giovana. Nos dias que estão na Avenida Paulista, é impossível uma criança não se aproximar e pedir para brincar e, assim que começa a rodopiar com o objeto de um lado para o outro, fica olhando para os pais, querendo chamar a atenção. Os adultos, por sua vez, acabam entrando na onda e começam a girar freneticamente a cintura para não deixar o bambolê cair. É uma atividade que envolve toda a família: “O bambolê é genial, é perfeito. Não tem quem não experimente e não goste”, diz Mariana. Algumas vezes até as avós ou avôs tentam bambolear com os netos. A princípio, os adultos ficam com vergonha, mas depois se soltam e costumam aproveitar boa parte do dia ali. Os meninos também entram na brincadeira, mostrando que a dança independe de gênero: “Muitos domingos eu vi meninos dançando, e ás vezes são os pais que acabam baixando a ‘vibe’ dos meninos, dizendo: ‘bambolê é coisa de menina’, e eu falo: ‘que nada, moço’…”, conta Desire.

As integrantes costumam ir com seus bambolês à Paulista aos domingos, mas lá não é um lugar de apresentação fixa. Elas estão sempre mudando para parques, praças e diversos locais onde possam levar sua arte para a maior quantidade de pessoas possível. Somente as aulas noturnas na Praça Franklin Roosevelt, às quartas-feiras, são regulares. Mudanças ou cancelamentos só são feitos em dias chuvosos. Escolheram às quartas-feiras porque nesse dia ocorre o encontro circense dos malabaristas e elas aproveitam o grande fluxo de pessoas.

Elas não se lembram de situações de brigas ou desentendimentos nas ruas, mas relatam alguns momentos desagradáveis, conforme conta Giovana:

— Há uns meses saiu uma matéria da Veja chamada Paraíso dos Camelôs, falando super mal dos artesãos que ficam ali em frente ao Shopping Center 3, e no dia dessa reportagem eu estava na Paulista com os bambolês. De repente, chegou a GCM falando que eu não podia expor os bambolês ali, vender mercadoria etc., aí eu disse: “mas eu não estou vendendo, eu estou fazendo uma manifestação artística”. Eu acho que ele nem sabia da lei que permite nosso trabalho nas ruas.

Geralmente são nos parques onde elas mais têm problemas para suas aulas e apresentações, em parte porque os administradores ou a própria Guarda Civil Metropolitana desconhece as leis e decretos que permitem o trabalho dos artistas nas ruas. Nem sempre todas as integrantes estão juntas nas apresentações/aulas/oficinas da CIA, na maioria das vezes porque estão fazendo outras oficinas e atividades em algum canto da cidade. Elas se apresentam como um grupo, mas na grande maioria das vezes fazem apresentações individuais, como é o caso de Mariana, que costuma se apresentar em festivais que ocorrem pelo Centro de São Paulo, e de Giovana, que recentemente viajou para Minas Gerais com o objetivo de divulgar a dança.

A Virada Cultural é um evento que conta com a presença confirmada de Mariana e, em algumas ocasiões, de outras integrantes do grupo. Ela costuma se apresentar no “Palco Lâmina”, dedicado a alguns artistas do estúdio, assim como a turma da Picanha de Chernobill.

Às vezes a CIA Bambolística vai para a Paulista com duas ou três integrantes — quase sempre Desire e Mariana. Além das apresentações, o que ajuda a complementar a renda das integrantes são as aulas regulares na Roosevelt, às quartas-feiras, e as irregulares durante os dias da semana. Em uma dessas aulas, que ocorreu no Centro Cultural São Paulo, não apenas estive presente observando, como participei. As meninas chegaram pouco antes do horário previsto. Larissa Lima, Larissa Violeta, Mariana e Desire estavam presentes, cada uma carregando uma quantidade de coisas. Mais alunas e pessoas curiosas chegaram. Algumas frequentam as aulas regulares na Roosevelt. Reconheci uma loira alta e magra — que me confidenciou ser modelo — sem muito gingado para manter o bambolê na cintura. Antes da aula começar, as meninas se apresentaram, com Mariana, tomando à frente.

A aula começou da mesma maneira que na Roosevelt, com um círculo, mas dessa vez os alongamentos e aquecimentos ficaram por conta de todos. Cada um que estava na roda escolhia uma forma diferente de se alongar, e o restante imitava o gesto. Também estavam ali dois rapazes que realmente queriam aprender, pelo menos por algumas horas, a usar o bambolê. Em algumas situações alguns caras se aproximam e fingem interesse na arte para importunar algumas das integrantes, como presenciei uma vez na Praça Roosevelt, quando um rapaz fingiu estar bamboleando para ficar perto de Mariana. Elas já estão acostumadas quando esse tipo de coisa acontece e tiram de letra, mas esses acontecimentos não deixam de ser desagradáveis: “Nunca aconteceu nada impactante, mas a gente não deixa, ficamos juntas, e se precisar damos uns ‘esporros’ com o bambolê”, diz Desire em um tom engraçado. Por ser um grupo de mulheres, o assédio, infelizmente, é comum, conforme Giovana conta:

— A gente tenta barrar sabe, a gente mostra que não é uma coisa sexual, mas pode ser sexual se você quiser olhar dessa forma… Muitas vezes já me perguntaram: ‘ah, por que você não usa sutiã quando você está dançando?’, como se eu quisesse seduzir alguém. Eu sou mulher, mas eu não preciso cobrir meu corpo por causa de uma pessoa que só pensa em sexo, que olha pra mim como objeto sexual.

No final da aula, novamente fizemos uma roda, com o chapéu no centro. Algumas alunas colaboraram. Um dos homens que participou resolveu comprar um bambolê. Dessa vez, pelo que observei, o lucro foi menor que as aulas na Roosevelt.

Todas as meninas produzem e vendem os bambolês, a preços que variam de R$ 40,00 a R$ 200,00. “As pessoas não querem pagar, acham caro, e a gente explica que é uma coisa feita por nós, artesanal, que leva tempo e materiais também…” diz Mariana. O mais caro é o bambolê de LED (bamboled), feito com luzes. Seu efeito é lindo. A ideia de produzir os próprios bambolês foi de Mariana, que, quando começou a se interessar pela prática, não os encontrava para comprar em nenhum lugar.

— Eu comecei a produzir e eu queria fazer os mais bonitos e coloridos possíveis.

Nas apresentações do grupo, é raro que elas não vendam nenhum bambolê, mesmo com algumas pessoas reclamando do preço. O campeão de vendas é o dobrável, por ser mais fácil de transportar. Custa R$ 70,00. Elas também oferecem oficinas de produção de bambolês, nas quais as alunas podem aprender a fazer seu próprio bambolê por cerca de R$ 60,00, incluindo uma aula no mesmo dia.

Os bambolês podem ser comprados nas ruas via cartão, graças a uma pequena máquina azul de Desire conectada ao celular, e também pela internet para outros países.

— Recebemos muitos pedidos, já enviamos bambolês para a Rússia, e eu lembro que vendi para uma tailandesa também.

As bambolistas costumam usar roupas confortáveis e divertidas, além de maquiagens circenses. Os cabelos, às vezes, ficam com algum penteado engraçado ou mesmo soltos, e as crianças se empolgam com o figurino inusitado. Elas chegam assim e vão para casa maquiadas, sem se importar em entrar no metrô caracterizadas.

Algumas situações desagradáveis já aconteceram envolvendo os vários bambolês que as meninas levam para vender ou emprestar para uso. Já houve casos onde, discretamente, algumas pessoas foram embora com os bambolês: “Já aconteceu muitas vezes das pessoas ‘meterem o louco’ e levarem os bambolês; se nós vemos, vamos atrás, mas às vezes tem muita gente e só percebemos depois”, diz Mariana. Desire também relata um dos casos:

— A gente emprestou um e depois percebemos que uma moça estava indo embora com nosso bambolê. Daí eu falei: ‘Moça, você pode devolver meu bambolê?’, e ela ficou brava, dizendo: ‘eu ia devolver, você acha que eu ia roubar?’. A gente tem que prestar bastante atenção nessas coisas, mas também temos que falar de um jeito que não ofenda ninguém…

Ao final do dia, aos domingos, Desire e Mariana voltam para casa levando um carrinho repleto de bambolês. Quando estão com as outras integrantes, essa tarefa é por vezes dividida. Nem sempre todas estão juntas, mas quando se reúnem, espalham alegria, diversão e sorrisos aos que estão dispostos a conhecer um pouco melhor essa nova forma de dança e percepção corporal.

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Crédito da fotografia: Lufe Bollini

Capítulo do livroArtistas de rua além dos clichês

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