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A criação da passeata raulseixista

in Ed_4_jul/set.2017 por

Depois daquele 21 de agosto de 1989, a data nunca mais foi a mesma para os fãs de Raul Seixas. E a partir do ano seguinte passaria a acontecer a passeata anual raulseixista em São Paulo. O Fã Clube Raul Mania organizou a primeira com divulgações na loja da Galeria do Rock, folhetos em postes, casa de shows e teve um forte boca em boca.

Naquele dia os fãs de Raul Seixas lotaram a loja do Raul Mania, onde havia uma grande concentração de pessoas totalmente caracterizada e preparada para a primeira passeata em homenagem ao cantor, naquele primeiro ano após sua morte.

Ainda na Galeria do Rock, a multidão que se encontrava cantava e dançava as suas músicas. A concentração maior foi na Praça Ramos de Azevedo, em frente da escadaria do Theatro Municipal. A maioria das pessoas carregavam faixas e banners com frases em homenagem ao cantor, como: Hoje é feriado é dia da saudade; Raul, bem vindo ao século XXI; Queremos Raul Seixas e outras com o nome do fã clube.

Após deixar a loja, os fãs já haviam tomado as escadarias do Theatro Municipal. Um carro de som comandado pelo pessoal do fã clube já estava na rua e pronto para a passeata até a Praça da Sé, que sairia depois de algumas horas. Até então, as pessoas faziam rodas e se abraçavam, cantavam com todas as forças em homenagem ao ídolo que havia partido um ano atrás.

A concentração nas escadarias do Theatro Municipal foi às 14h e a saída da passeata até a Praça da Sé, às 18h. Esse é o trajeto que ocorre até hoje. Já aconteceram inúmeras brigas e sugestões de alteração, mas a maioria de seus frequentadores lutam para que esse trajeto, que se tornou tradição durante todos esses anos, nunca seja alterado.

“Hoje se alguém tenta mudar uma rua do trajeto o bicho pega. Houve um ano em que foi terrível. A gente sempre fazia a coisa com ofício, na Prefeitura e tudo mais, acionava Polícia Militar e a Guarda Municipal. Mas, como foi virando uma tradição, não fizemos mais. Até que então, um dia deu problema. Um comandante quis saber quem era o responsável pela passeata. Então o pessoal me chamou. Ele virou para mim e falou: “Vocês vão atrapalhar o trânsito”, e sugeriu que fizéssemos outro trajeto, mas de jeito nenhum”, contou o fã Carlos Bigode.

“Houve uma reunião para tentar mudar o trajeto da passeata uma vez. Queriam que eu me responsabilizasse. Até hoje as pessoas acham que eu sou o responsável. Eu nunca organizei e nunca vou organizar essa bagunça. Várias vezes eu chego à passeata e a polícia está me esperando, porque acha que eu sou responsável e eu ainda faço piada. Eu não sou o responsável. O responsável é Raul Seixas, então vá resolver isso com ele”, brincou Sylvio Passos, o fundador do Raul Rock Club.

Sylvio contou que as autoridades já pediram seus documentos inúmeras vezes na passeata, por acharem que ele era o principal organizador. “Não tem organizador. Somente faço a divulgação como em todos os anos. Não tem como se responsabilizar por todos aqueles malucos. Não dá”, completou.

Música na passeata

A passeata já passou por diversas mudanças no quesito música. O que não pode faltar claro, é música do Raul. Se não tem, os fãs inventam e cantam de qualquer forma. Já houve ano com carro de som, caminhão, triciclo, palco e só violão e voz ao longo destes 27 anos de passeata. Cada formato agrada um público diferente. Nem todos gostam de palco. Os fãs mais velhos, que frequentam desde as primeiras, acham que a passeata funciona sozinha, sem precisar de shows, sem alto falante ou qualquer tipo de carro de som.

“Eu, por exemplo, não gosto de música na passeata. Tem fases que tem político querendo colocar caminhão de som e triciclo, mas gente da prefeitura querendo colocar palco eu não concordo. Com isso, aparece um monte de gente que nunca foi a passeata, mas aparece porque vai tocar e receber dinheiro por isto. Bonito mesmo é por exemplo, ver o Adan Andrade com o violão sentado na calçada e mais de 50 pessoas em volta dele. Isso sim é legal”, desabafou Carlos Bigode.

“Uma vez, fizeram uma vaquinha online para alugar um carro de som. Eu divulguei e acabou que o carro não apareceu. Com isso, diversas pessoas vieram para cima de mim, é claro. Mas eu não tive culpa, não foi depositado na minha conta. Tentaram realizar isso pelo menos umas duas vezes e não deu certo, até que o pessoal resolveu entrar mesmo com o seu próprio carro, tanto que o Penna Seixas, que tem uma fábrica de motos, e participa de moto clube levou o triciclo dele e foi sabotado. Ele ficou bem chateado”, afirmou Sylvio Passos.

 “O intuito da passeata não é ter palco para o pessoal ganhar dinheiro. Muitas vezes, eu tive a honra de desmontar um caminhão para fazer um triciclo para levar para a passeata e não sou mais do que ninguém por isso. Algumas pessoas não gostaram quando eu levava o triciclo, falaram que eu queria me aparecer e sabotaram. Puxaram os fios do triciclo e agora eu não levo mais. Tudo bem. Mas eu fiz isso por amor ao Raul. Isso pra mim é ser raulseixista”, desabafou Penna Seixas, motociclista e também cover do artista.

Em 2014 e em 2015 foram os primeiros anos da história da passeata, em que foi montado um palco. Diversas bandas foram chamadas para tocar. Covers e outras bandas prestaram homenagens ao cantor.

“Sempre vai ser impossível agradar todo mundo. No ano passado não teve nada, porque caiu aquela tempestade, mas mesmo assim quem veio ficou muito feliz e cumpriu o compromisso que tem com o Raul”, contou Sylvio Passos sobre a passeata de 2016.

Divulgação das passeatas e dedicação dos fãs

Com o passar dos anos, a passeata tomou uma proporção enorme, tanto que hoje não precisa mais de divulgação. Simplesmente acontece. Todo dia 21 de agosto é o principal dia do ano no calendário de um raulseixista, inclusive a data entrou para o calendário oficial da cidade de São Paulo. Fãs de diversas partes do país se encontram e fazem uma grande festa.

“Antigamente era mais difícil divulgação. Era colar cartaz em poste, em casa de shows… Mas depois as coisas começaram a ficar maiores com o orkut, o pessoal fazia as divulgações nas comunidades e hoje não precisa mais de nada”, disse Penna Seixas.

A dedicação dos fãs de Raul Seixas impressiona e o compromisso com essa data acaba sendo algo como uma presença obrigatória. Independentemente do dia da semana que cair e o que a previsão do tempo acusar, nada estraga a festa.

“Fiz muitos amigos na passeata. Alguns deles eu só encontro lá mesmo, uma vez por ano. Gente que é de outras cidades. Tem um pessoal que cresceu na passeata, teve filho. Hoje o filho cresceu e frequenta também. Vai passando de geração em geração. Todo dia 21 de agosto eu tenho um compromisso com o Raul, não importa como estiver o tempo e independentemente do dia da semana que cair”, relembrou Carlos Bigode.

Minha primeira passeata foi em 1999, 10 anos sem Raul Seixas. Desde então, vou a todas. Nunca me esqueço. Eu estava na Galeria do Rock com uma amiga e comecei a escutar uma música no fundo “Ô ô seu moço, do disco voador” e fomos atrás. Quando eu vi toda aquela galera, eu fiquei maravilhada. Na passeata foi a primeira vez que eu vi roqueiro de calça de couro, dançar forró. Forró com rock and roll. Eu me lembro também de ouvir “Ave Maria da rua” e vi um monte de roqueiro, punk e metaleiro se abraçar e cantar essa oração. Foi ai que eu me rendi de joelhos ao Raul”, contou Laura Furlan, outra fã de Raul Seixas.

“Dia 21 de agosto é uma data muito importante e para mim, como fã, significa muito. Eu já faltei no trabalho e já fui demitido por causa da passeata. A minha primeira foi com nove anos e eu adorei. Por ser pequeno eu não conhecia tanto, mas o clima é propício. Toda passeata eu conheço uma pessoa nova, seja pelo trabalho que faço na internet ou não, a gente se comunica bem”, contou Adan Andrade, intérprete de Raul Seixas e vocalista da banda Luar Azavessos.

A passeata do Raul tem um significado único no mundo. Ele é o único artista que tem um evento anual em sua homenagem. Acho que ela só acontece e existe pelo lado messiânico do Raul, que trás uma importância na vida dos seus fãs quase religiosa. A passeata entrou no subconsciente do raulseixista e não importa o que aconteça, ela sempre vai acontecer”, contou Rafael Galfano, fã e colecionador da obra de Raul Seixas.

“Nunca tivemos uma cobertura muito grande da imprensa não, mas sempre foi um movimento muito bonito, um movimento só nosso”. Fazer aquela caminhada todos os anos sempre naquele dia e naquele horário… Você sabe me dizer o que você estava fazendo tal dia, tal hora nos últimos 18 anos da sua vida? Eu sei. Eu estava na passeata. Todo dia 21 de agosto de 1999 até hoje naquele mesmo horário, eu estava lá”, finalizou a fã Laura Furlan.

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Crédito da imagem: Mayara Grosso

Montagem: Israel Dias de Oliveira

Capítulo do livro “A Semente da Nova Idade

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