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Momento da fama

in Ed_4_jul/set.2017 por

Como disse Laert sobre a participação do Língua de Trapo no Festival dos Festivais, atacar a grande mídia e o sistema não quer dizer que você não pode levar suas críticas à rede nacional, principalmente para a TV.

O título do livro é a reprodução de uma frase que Jô Soares criou para apresentar a banda em sua primeira participação no programa Jô Soares Onze e Meia. Ainda residente do SBT, Jô Soares tinha um certo carinho pela banda. Foram diversas apresentações em seu programa.

“Eles Não Perdoam Ninguém: Língua de Trapo’’. A forma que Jô Soares apresentou a banda em sua primeira aparição no Jô Soares Onze e Meia, marca também a abertura do disco Brincando com Fogo.

Além de Jô, a apresentadora Hebe Camargo entrava em transe quando se deparava com Grace Black, ou Clade Alexandre.

Moisés Inácio, responsável por interpretar as duas criações de seu repertório, tirava gargalhadas intensas quando a banda ia ao Programa da Hebe. Certa vez, ao participar do programa do filho da apresentadora, Marcelo Capuano, Moisés se deparou com uma saia justa. Capuano virou para Clade Alexandre e falou, em tom irônico e bem-humorado: “mas tu é uma bichona muito feia mesmo, hein?’’.

Por motivos óbvios, Moisés era sempre o alvo dos apresentadores. Ao participar do programa “Clodovil Abre o Jogo’’, em 1993, Moisés recebeu o seguinte comentário de Clô: “Quem é essa negona aqui? É esposa da banda?’’ Em tom bem-humorado Moisés respondeu que era a esposa de todos. Caracterizado de Clade, ao entrar no palco, Moisés carregava uma boneca no colo. A boneca era branca e representava o filho da musa do Língua.

Ao ver que Moisés jogava a criança pra cima Clodovil falou:

— Meu Deus, é assim que vocês tratam as crianças?

Sem reação, Moisés olhou para Clodovil como quem diz: “Filho da mãe’’. Porém, Laert o salvou com uma resposta ácida e cheia de pitadas de humor:

— Quem trata assim nossas crianças é a polícia, Clodovil.

Clodovil logo desconversou e com cara de nada concluiu:

— É isso mesmo, negona? (se dirigindo a Moisés).

Moisés quebrou o gelo e arriscou um inglês germânico com sotaque asiático que ninguém entendeu nada. E assim o auditório foi abaixo com a performance de Clade Alexandre.

Certa vez no programa de Hebe Camargo, ao cantar a música Tudo Para o Paraguai, Clade Alexandre fazia algumas dancinhas descompassadas pelo palco. Até que em determinado momento chegou próximo à apresentadora e levantou a saia como quem se despe ali, em pleno campeão de audiência das segundas-feiras à noite, sem o mínimo temor. Hebe foi à loucura, daí em diante a banda passou a figurar semestralmente como atração do programa.

O “Bem Brasil’’ era outra espécie de casa para o Língua. Apresentado pelo vocalista da banda Premeditando o Breque, Wandi Doratiotto, o sexteto tornou-se presença obrigatória nos domingos da TV Cultura. A gravação a céu aberto, no Sesc Interlagos, funcionava como um show da banda. Era mais uma apresentação da banda do que a participação em um programa de televisão convencional. Foi lá que apareceu pela primeira vez o personagem Roldivaldo, também criado por Moisés Inácio.

Roldivaldo cantava a seguinte canção: “Eu quero gravar meu disco. Por isso fui pra São Paulo. Por isso fui pra São Paulo, eu quero gravar meu disco’’. Parece sem sal. Sim, parece. Mas não existe música sem sal que conte com as maluquices de Moisés Inácio. Dalí em diante, Roldivaldo tornou-se outro personagem presente nos shows.

E sobre seus personagens, Moisés é bastante político, mas assume que Grace sempre foi sua grande estrela:

— Não sei dizer qual teria sido o número mais marcante porque eu acredito que mesmo cantando ou dançando, recitando textos, ou tudo mais que fazia, isso era meio que um preparo para a apresentação da Grace Black. Mostrar a minha versatilidade como comediante na verdade era mesmo uma preparação para a estrela maior, Grace Black, sem dúvida nenhuma. E sempre fiz com muito orgulho e feliz as solicitações e ideias que o Laert me propunha ou que eu mesmo sugeria. (Moisés Inácio).

Todos os líderes de audiência receberam o Língua de Trapo: Domingo Legal (Gugu); Flash (Amaury Jr.); Otávio Mesquita; Goulart de Andrade; Ana Maria Braga; entre tantos outros.

 —Eu diria que tivemos várias fases de “pico”, nos anos oitenta na época dos lançamentos dos dois primeiros discos e do Festival dos Festivais, e nos anos noventa, na época de lançamento do disco ‘Brincando com Fogo’ e do disco ‘Língua ao Vivo’. (Laert Sarrumor).

Chega 1994 e o Língua de Trapo é só sucesso. Presença contínua em todos os veículos de mídia, flashes, shows sempre lotados, teatros da Funarte sempre com sold out, Sescs sempre procurando a banda para shows em todas suas unidades. Até que chega o dia 1º de maio.

— Estávamos prontos para subir no palco. A energia não estava tão boa. O que aconteceu no dia anterior na Fórmula 1 chocou todo mundo. (Valmir Valentim).

No dia anterior ao show em comemoração ao dia do trabalhador, aconteceu um acidente na Fórmula 1, no GP de Ímola, que tirou a vida de Roland Ratzenberger. O acidente com o austríaco deixou o brasileiro Ayrton Senna chocado, a ponto de dar uma entrevista à TV Globo relatando a insatisfação com a permanência da corrida que aconteceu no dia seguinte. Parece que o país havia, ali, entrado em pane.

Quando chegou o dia da corrida, ainda chocados com a entrevista do piloto brasileiro, assim como todo o país, a banda seguiu para seu compromisso.

Tudo preparado. Som passado. Só faltava acabar a corrida para que o show começasse.

E esse momento não chegou.

— Foi um choque. Não tínhamos a menor condição de tocar. O público não tinha a menor condição de ficar ali para nos assistir. Só me lembro de ouvir o anúncio: ‘foi confirmada a morte do piloto Ayrton Senna. O show está cancelado’. E assim voltamos para casa em um dos piores dias da minha vida. (Valmir Valentim, baterista do Língua de Trapo).

A tragédia envolvendo o piloto brasileiro foi o grande fato negativo ocorrido em 1994. Na contramão do acidente com Senna, vinha a esperança na política com o recém-aprovado Plano Real e a taça da Copa do Mundo de futebol, depois de 24 anos sem título mundial.

No ano seguinte, a banda agrega a seu elenco o renomado diretor de teatro, Carlos Alberto Soffredini. Não era das tarefas mais fáceis reeducar um monte de marmanjos a se comportarem no palco.

O que Soffredini fez com o Língua de Trapo foi transformar um grupo musical, artístico e autodidata por natureza, em um grupo teatral musical por natureza. A elevação do trabalho da banda ocorreu instantaneamente, e Soffredini preparou dois shows para o grupo.

 — Ter contado com o trabalho do renomado diretor de teatro Carlos Alberto Soffredini na direção dos shows “Juntando os Trapos” e “Fim de Século” sem dúvida enriqueceu enormemente os espetáculos deixando pra nós lições de atuação e postura em palco que usamos até hoje. Eu já havia trabalhado com ele em outros projetos e o convidei para dirigir nossos shows. (Laert Sarrumor).

Com Soffredini no comando da trupe, a única solução era obedecer ao diretor.

— Miletto, vai pra esquerda!

Lá vai o Miletto para a direita…

— Miletto, agacha!

E Miletto se ajoelha…

— Puta que pariu, Miletto, parece que tem Pestalozzi.

Ou pelo menos tentar obedecer o diretor.

Por mais que Miletto tenha passado por esse episódio cômico com Soffredini, entende que sem o diretor não teriam acontecido mudanças tão drásticas na forma do Língua de Trapo se comportar no palco.

 — Trabalhar com ele foi uma experiência inovadora, pois sempre gostei de teatro. Com o Soffredini, tive a oportunidade de enxergar a música e o palco por um outro prisma que não só o do instrumentista, ele me fez perceber coisas que não imaginava, aprendi lições que trago comigo até os dias de hoje. (José Miletto).

Com o sucesso do show “Juntando os Trapos’’, Soffredini resolveu mudar todo o rumo da banda. O assunto do momento era o final do século XX e a passagem para o século seguinte. O tema do momento: tecnologia. O diretor pegou o gancho e criou o show “Fim de Século’’.

Não tinha espectador que saía do show sem se desabar em lágrimas de alegria. Além das canções gravadas até então para o álbum “Brincando com Fogo’’, foram agregadas ao repertório as canções para o Fim de Século. Foi então que surgiu a ideia da gravação do quinto disco da banda, dessa vez CD, o primeiro ao vivo. Gravado na Funarte, em São Paulo.

 — O ‘Língua Ao Vivo’ não foi planejado, foi circunstancial. A gente vinha fazendo temporada do show “Fim de Século” na Sala Guiomar Novaes da Funarte, há algum tempo, e a banda estava bastante afiada. No meio da temporada, o Chicão, dono da gravadora Devil Discos, havia adquirido uma unidade móvel de gravação e nos propôs fazer o registro ao vivo do show e nós, obviamente, topamos de pronto. (Laert Sarrumor).

— O repertório base do Primeiro álbum ao vivo, saiu do Show “Fim de Século”, que, na minha opinião, foi o melhor trabalho do qual eu participei. O show foi muito bem montado, já que tivemos a honra de ter na direção do espetáculo, o professor Soffredini. (Cacá Lima).

As 15 canções do disco diversificam temas entre sexo; críticas sociais; tecnologia; política; e a narração de uma história de um brasileiro que canta, se veste e age como um paraguaio. Tudo para o Paraguai. Autoria de Cesar Brunetti, que também entrou ao seleto grupo de compositores da banda.

 “Esta ‘noche’ me roubaram a Paraty. Levaram pra fronteira para depenar. Lá tem uma feira tupy-guarani, pode cocaína pode guaraná/nada existe de mais falso que um brasileiro cantando em paraguaio.’’ (Trecho da música Tudo para o Paraguai).

Músicas relacionadas ao tema eram os destaques do show. ‘Xingu Blues’, uma releitura de ‘Xingu Disco’, presente no álbum de 1982; ‘Cangaceiro Cibernético’; ‘Fim de Século’; e ‘Conformática’ eram as principais mensagens do show. Conformática, composição de Ayrton Mugnaini Jr., narra a história da relação humana com o computador: “informatização, informatização, a máquina evolui e o homem fica paradão’’.

Faz parte, ainda, das releituras uma versão heavy metal de Os Metaleiros Também Amam.

O show de lançamento foi feito no Sesc Pompeia, em São Paulo, eleito pela banda como a casa do Língua de Trapo.

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Crédito da imagem: Língua de Trapo em show nos anos 90 | Arquivo do Língua de Trapo

Capítulo do livro “Eles Não Perdoam Ninguém: Língua de Trapo!

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