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A Sangue Frio (resenha)

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Relato verdadeiro de um homicídio múltiplo e suas consequências

Em 15 de novembro de 1959, um crime deixou uma pequena cidade dos Estados Unidos aterrorizada. De forma fria e cruel dois homens executaram uma tarefa hedionda. Isto serviu de inspiração para o livro que hoje é considerado uma das maiores referências do romance de não-ficção.
É sabido que o jornalismo trata de dados factuais. A precisão é o ponto fundamental para a apresentação da notícia, informando com bases sólidas de fontes oficiais ou por investigações realizadas pelos veículos de comunicação que são dirigidos pelo e ao interesse público.
No romance, tem-se a realidade somente como cenário para a criação literária, com personagens, sendo ou não, protagonistas de um conflito que em seu entorno giram temas secundários, hábitos, observação de costumes e divagações filosóficas.
Truman Capote, em sua maior obra, A Sangue Frio, conseguiu congregar estas duas vertentes.
Capote, escritor talentoso que iniciou um gênero denominado por ele como romance de não-ficção. Escritor literário, sua tendência jornalística se aprofundou com o convívio na The New Yorker ― revista que se tornou o berço do jornalismo literário estadunidense na década de 1960 ―, lá o estilo foi denominado new journalism, em tradução literal, novo jornalismo.
O livro tem como fato nuclear o assassinato da família Clutter em Holcomb, Kansas, EUA, que chocou a todos no país pela forma como foi executado: quatro pessoas da mesma família foram amarradas, amordaçadas e, cada uma, recebeu um tiro de espingarda na cabeça.
O livro começa com uma reconstrução do dia-a-dia da família Clutter, os vizinhos, os amigos e animais de estimação. A sensação que se tem é de que eles ainda estavam vivos quando Capote começou sua investigação. Talvez estivessem, mas somente na memória das pessoas entrevistadas.
Descrever o crime no formato norte-americano de lead seria um trabalho casual para qualquer jornalista, mas Capote vai muito além, descreveu com requintes de um romance, cada lugar e pessoa com quem falou. A cidade, as casas, os bares e as ruas. As formas os jeitos e movimentos. Tudo está lá, descrito e exposto como composição do cenário. Mergulha no psicológico das pessoas a ponto de extrair relatos até então inéditos a todos.
Somente faltando poucas páginas para o final é que vemos o relato completo do crime na voz de Perry Smith e Richard “Dick” Hickock, os assassinos que logo seriam enforcados.
Seu relato sobre Perry parece ser o mais sensível de todos, talvez pela aproximação ou empatia desencadeada no convívio das visitas ao cárcere.
Com o mergulho na investigação para relatar os fatos, é impossível que ele não tenha sofrido alterações em sua forma de pensar e escrever. Ser tocado por relatos de amor e ódio poderiam ter alinhado sua escrita?

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Recorte do jornal “Garden City Telegram”, 1965.

As pessoas aparecem no livro como personagens de uma trama, que vez ou outra é possível crer que não são reais, mas são pessoas e depoimentos factuais, dados, datas e momentos reais apresentados pelo escritor através de sua óptica singular.
Tecer elogios à Truman Capote é fácil, difícil é aprofundar o debate em torno dos critérios que ele adotou para captar, traduzir e expor os fatos presentes durante tanto tempo de investigação.
O livro demorou seis anos para ser concluído, Capote alegava aos seus superiores que não poderia terminar a reportagem sem saber o desfecho. Na época o editor da The New Yorker, William Shawn, que, por credo, fé ou paciência, esperou a conclusão do manuscrito e não se decepcionou.
Capote ouviu todos os lados possíveis, isto é, as pessoas que conheciam desde a infância os criminosos e as pessoas que os estavam julgando. Foi até a exaustão dos fatos através das fontes, para ter em suas mãos o mais fiel relato de um crime que, se publicado em notícias de jornais diários, não teria jamais alcançado a profundidade e a precisão que alcançou.
A Sangue Frio transformou Truman Capote em um dos escritores mais famosos dos EUA, mas parece que houve um preço para isso, Capote nunca mais terminou outro livro.
Os jornalistas perseguem a ruptura, há uma busca incansável por descobrir e trazer à superfície informações de interesse comum, isto é um objeto de desejo. Truman Capote cria esta ruptura com sua descritiva literária em um romance sem ficção.

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Autor: Truman Capote
Tradução: Sérgio Flaksman
Capa: João Baptista da Costa Aguiar
Editora: Companhia das Letras
Capa da edição traduzida de 2003, 440 páginas
ISBN: 978-85-359-0411-6

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