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…3 mil haitianos incomodam muito mais

in Ed_3_abr/jun.2017 por

Em 2011, a igreja católica participou no começo, com a questão da cozinha. Depois, com as reuniões das secretarias, foi se configurando para 2012 quem ficaria à frente e seria o responsável pelo abrigo, e, por fim, ficaram a SEDS e a SEJUDH. No início de 2012, as coisas já estavam mais bem definidas com o abrigo público no ginásio e a compra das marmitex garantindo as três refeições diárias dos imigrantes. Iniciou-se, então, o processo de alternância entre as duas pastas. Uma semana a equipe da SEJUDH ia para o abrigo, em Brasileia, fazia a recepção, cadastrava o nome, passaporte, cidade de origem, cidade de destino, enfim, o preenchimento de um formulário, identificando cada pessoa. Na outra semana, era a equipe da SEDS que dava continuidade ao trabalho. As secretarias encaminhavam os formulários para a Policia Federal, que devolvia para elas as solicitações de refúgio, os protocolos de refúgio e visto humanitário, e as secretarias passavam para os imigrantes essas solicitações. Tudo com a interlocução de um tradutor que falava espanhol, como já foi mencionado. Em 2012, a Policia Federal ia até o abrigo todos os dias, tirava foto e fazia o protocolo lá mesmo. Aparentemente, cada órgão exercia sua parte muito bem.

Certa vez, as secretarias receberam treinamento do Departamento de Proteção Social Básico, do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Uma equipe foi até Brasileia e instruiu os funcionários do abrigo de como deveria ser feita a abordagem com refugiados e imigrantes. Era começo de 2012 e os processos já haviam se tornado mais sistemáticos, como, por exemplo, a emissão do protocolo de visto humanitário pela Policia Federal, tratamento dado aos haitianos após o decreto presidencial. O CPF sempre foi tirado por conta própria. Iam até a casa lotérica da cidade, pegavam o documento e depois conseguiam fazer a Carteira de Trabalho. Toda essa rotina já estava consolidada em 2012. A Secretaria da Saúde continuou fazendo seu serviço também, mas, diretamente com eles, no dia a dia, eram só a SEDS e a SEJUDH, alternando as semanas.

Também, naquele ano, o Estado do Acre passou por muitas chuvas. As maiores bacias hidrográficas da região transbordaram e ocorreu um grande alagamento no Estado todo, atingindo principalmente a cidade de Assis Brasil, destruindo prédios, lojas grandes e tudo o mais que ficasse no caminho. O município de Brasileia também foi afetado. As chuvas deixaram 80% da cidade debaixo d’água. A população começou a dizer coisas como ‘’os haitianos passaram por um terremoto, vêm para cá agora e deu essa alagação’’, dando a entender que eram os imigrantes que estavam atraindo todo aquele caos. Um monte de haitiano na cidade, o maior alagamento já visto nos últimos tempos no Estado do Acre e, por incrível que pareça, o ginásio que eles estavam não alagou. Foi um dos poucos lugares de Brasileia que ficou intacto. Mas o resto da cidade ficou acabado.

Em 2013, não ocorreram alagamentos, só as chuvas já previstas. Porém, em janeiro de 2014, outra grande enchente afetou o Estado. Brasileia não foi tão atingida, já a capital, Rio Branco, sim, devido a outros rios que desaguam no rio Acre, que corta a cidade. A única saída para Porto Velho, capital de Rondônia, rota dos ônibus que partiam com os refugiados de Brasileia, ficou interditada com a transposição do Rio Madeira. Foi nessa época que na cidade acumulou cerca de 2.800 imigrantes.

O abrigo no ginásio estava lotado, por isso, havia haitianos espalhados por todos os cantos. Hotel, pensão, casas alugadas; Brasileia estava um caos. Dava para ir até Rio Branco, mas iam fazer o quê, se não havia abrigo lá? Não tinha nenhum atendimento na capital nessa época, só a Policia Federal, que não oferece o acolhimento. Eles, então, ficavam em Brasileia mesmo. De 2.500 a 2.800 pessoas, possivelmente 3.000, instaladas em uma cidade que enfrentava problemas estruturais graves.

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Crédito da imagem: Autora

Capítulo do livroAbrigados: As políticas brasileiras voltadas à imigração massiva de haitianos e senegaleses pelo Estado do Acre

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