Prólogo

in Ed_3_abr/jun.2017 por

Abril de 2015

Sempre que o ócio me assombrava — como se dissesse “Olha! Eu ainda existo, viu?” — eu me lembrava que o roteador estava ali, bem ali… O pressionar de um botão seria suficiente para preencher aquele aparente vazio que me assolava desde o dia em que eu decidira me pôr à prova: uma semana sem Internet.

Mas, falhei na missão.

Tenho tantos motivos quanto abas abertas em meu navegador de Internet neste exato momento. Aliás, enquanto escrevo estas linhas, o Google Chrome carrega um vídeo com mais de duas horas de trilhas sonoras; tenho as páginas do Facebook e Twitter abertas e, finalmente, um programa de downloads ilegal rodando a todo o vapor.

O que aprendi nestes últimos dias?

Bem, que sou tremendamente desorganizado e indisciplinado. A falta dessas qualidades não combina com o que me proponho a realizar nos próximos meses.

Não foi nada fácil, meus caros.

O cerne de meu projeto se baseia numa simples questão: é possível viver desconectado hoje? Sim, você leu certo: des-co-nec-ta-do. Um questionamento deveras interessante, vocês hão concordar. Fiz a mesma pergunta a um amigo que não desgrudava do celular. Mais que isso, perguntei se estaria interessado em passar alguns dias sem aquele pequeno aparelho. Guilherme Napolitano me olhou de soslaio por um tempo, aparentemente sem acreditar no que acabava de ouvir. Digitou algo no celular e, em seguida, me perguntou se eu estava falando sério. Respondi que sim. Ele sorriu um sorriso sem graça e finalmente respondeu:

— Então, man… É que preciso dele para me manter em contato com a empresa.

Não forcei a barra, claro. Voltei-me, então, para a aula e cinco minutos depois sou chamado por ele. Guilherme estava com uma das mãos estendida em minha direção. Segurava o celular enquanto ria copiosamente. “Man, man, dá uma olhada nesse vídeo. HÁ HÁ HÁ.”

Ééé, meus caros. Guilherme dependia mesmo daquele pequeno aparelho.

Ócio…

Os ponteiros do relógio seguiam firmes em sua jornada cíclica infinita, enquanto eu permanecia petrificado na cozinha apreciando o nada. Desde que me submeti a essa sabática semana, um híbrido de liberdade e vazio se fez presente. Em outras palavras, me sentia livre para fazer o que bem entendesse; mas o que exatamente? Estava à deriva num oceano de possibilidades, e a infinidade de escolhas, meus caros, me assombrava como nunca. Afirmo: não existe nada mais terrível que o infinito. Acreditem ou não, durante alguns dias me exercitei com bolinhas de terapia chinesa. Com as mãos, eu fazia movimentos rotacionais no sentido horário e anti-horário — ao melhor estilo mestre Miyagi (acho que ele se exercitava com essas bolinhas, não?). Esse exercício, segundo o manual, atingiria “os pontos da emoção, contraindo e relaxando harmonicamente”. Tal qual um viciado em fumo, aquelas bolinhas eram substitutas temporárias para o meu aparente vício.

Escolhi uma segunda-feira para dar início ao projeto. Ao menos a versão beta dele. Nada de tão especial, tirando o fato de ser uma segunda-feira. Visitei alguns amigos, sempre visando me manter ocupado a maior parte do tempo. A ideia era boa, mas eu não contava que outras pessoas não estivessem em sintonia com os meus objetivos.

Alan, um amigo de infância, passou grande parte do tempo pesquisando referências de filmes na Internet e me mostrou inúmeros vídeos no Youtube. Eu não poderia simplesmente olhá-lo nos olhos e dizer: “Cara, desconecta aí. Tô tentando ficar longe desses baratos”; a probabilidade de eu receber um foda-se! era alta. Darlan, outro truta de longa data, parecia estar dividido entre mim e a tela do celular. “Só um minutinho, Cabrera…”, me dizia cada vez que o celular vibrava sobre a mesa. Digitava meia dúzia de palavras e sorria com o canto da boca — aparentemente, algo muito mais interessante se dava ali naquele aparelhinho. Nossas conversas eram tão fragmentadas, que eu me sentia parte dos roteiros malucos de Quentin Tarantino.

Passei pouco mais de… seis horas sem Internet. Não resisti. Tive que promulgar, aos quarenta e cinco do segundo tempo, uma emenda às regras do jogo. Poderia SIM me conectar, só que com algumas ressalvas: 15 minutos para verificar o e-mail, acessar as redes sociais e administrar o meu blog, e três mensagens de texto para celular seriam suficientes. O pretexto (eu achei que precisava de um) era o de que cortar esta ferramenta de uma hora pra outra seria prejudicial. Precisava me adequar a essa realidade com o tempo. Na maciota, como diria meu velho pai.

Há um tempo, conversei com um psicólogo a respeito da influência da Internet, sobretudo das redes sociais no comportamento e nas relações humanas. Luciano Mattuella, um psicólogo entusiasta das redes sociais — e mantenedor do blog Psicanálise e Cultura —, me disse que o homem sempre precisou do olhar do outro para se constituir e se sustentar. “É através do olhar da mãe que o bebê tem o primeiro contato com o mundo. É pelo olhar dos colegas que alguém vai se constituindo como pertencendo a uma cultura, uma época. Os outros são espelhos em que nos vemos refletidos.”

O vazio que eu sentia pode ser explicado, de acordo com Mattuella, segundo a ideia da visibilidade. Ou seja, só existiria na cena do mundo aquilo que reluz aos olhos da sociedade. Não vou mentir: em certos momentos me sentia um peixe fora d’água. Algo parecia acontecer em algum lugar, mas a sensação era de que eu estava perdendo tudo. Desconectar-me, portanto, foi como pôr meu outro “eu”, meu “eu” cibernético, meu “eu” binário, em estado de suspensão. Eu não existia. Manter-me desconectado, afinal, se mostrou muito mais difícil do que eu pensava.

Os dias que se seguiram só comprovaram o quão falho fui nessa empreitada. O tempo que eu estipulara se mostrou insuficiente, e em muitos momentos me peguei burlando “a lei”. Tentei recomeçar a tal semana sabática por várias vezes, mas algo no meio do caminho parecia dar errado. As atividades da faculdade só aumentavam e as cobranças por elas também. Além disso, meu notebook falecera e, em consequência disso, perdi todos os documentos da memória: entre eles o relatório de pesquisa do meu TCC — chega a ser irônico pensar que se eu tivesse salvado meus textos numa nuvem (online!), ou em algum outro servidor na web, meus problemas não teriam se agravado tanto. Fora isso, o trabalho que venho fazendo em meu blog, o Rolê com Tubaína — onde publico as histórias de vida dos meus amigos do Facebook —, me consumia na mesma medida. Não havia bolinhas de terapia chinesa que ajudassem! Como disse há pouco, percebi o quão desorganizado e indisciplinado eu sou. Um projeto como esse exigiria uma disciplina de Buda; algo que me falta em demasia.

Ramelei na missão.

Aliás, no domingo anterior ao início deste projeto falhei numa nobre missão; missão essa que envolvia uma garota. As horas com ela e o flertes se mostraram (aparentemente) certeiros, mas nos últimos minutos só me sobrou um abraço apertado — acompanhado de um “Ah! Não quer me soltar?” — e quatro beijos no rosto.

Seria um presságio?

E eu fiz tudo o que pedia o protocolo. De qualquer maneira, tenho mais algumas semanas para me organizar e mergulhar de vez nesse projeto, tal qual um navegante sem bússola, sem destino.

Um maluco desconectado.

typewriter

Crédito da imagem: Arquivo do autor

Capítulo do livro “146 dias sem Ela: a experiência de um jornalista desconectado da internet”

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