Cristolândia

in Ed_1_out/dez.2016 por and

“A Cracolândia é o final da carreira pra um usuário de droga.” O impacto da frase me faz repeti-la mentalmente diversas vezes. A expressão séria, os olhos marejados e a firmeza da voz acabam com qualquer dúvida que pudesse existir: a Cracolândia é o ponto final. Ou quem sabe tenha sido por muito tempo.
Em alguns casos, como o de Lodemir José, a Cracolândia também é a porta de saída que os leva à quase homônima Cristolândia – uma iniciativa da Igreja Batista que visa recuperar as pessoas da dependência química.
Nascido em Alfenas, Minas Gerais, Lodemir conheceu o crack aos 16 anos de idade, quando se mudou para São Paulo, em 1992. Antes disso, havia experimentado o álcool, a cola, a cocaína e todos os tipos de “drogas que se pode imaginar”. Nas ruas do bairro da Luz, a sua estadia aconteceu em 2010 onde, vivendo em condições sub-humanas, permaneceu por seis meses. Morador de rua, raramente se alimentava. Os cuidados com a saúde e higiene eram mínimos, se não inexistentes. Passou metade desse período sem tomar banho, trocar suas roupas e aparar o cabelo. Praticou furtos, aterrorizou mulheres e comerciantes e se envolveu em brigas, sempre motivado por aquilo que mais amava na vida, a droga. Era refém dos efeitos produzidos pela pedra. “O crack é como um câncer. Quando você pensa que está curado, ele recolhe. Quando você acha que está forte, você cai novamente. O crack é uma destruição total, é aquela palavra que diz: o diabo veio para matar, roubar e destruir. Isso é o crack.”
Mesmo vivendo seu inferno pessoal, Lodemir era um homem de fé e nos raros momentos de lucidez implorava aos céus por forças para abandonar o vício. E foi ali, na rua Barão de Piracicaba – endereço que abriga a Cristolândia de São Paulo há quase seis anos – que teve o seu pedido atendido. Ele descreve a cena, visivelmente emocionado, como um “encontro genuíno com Deus, em que foi alcançado pela misericórdia”.
Desde aquele encontro já se passaram quatro anos, nove meses e dez dias – ele faz questão de deixar registrado cada novo dia em seu calendário – pode parecer pouco tempo se comparado aos 22 anos de dependência química, diversas internações e recaídas, mas, para ele, a contagem é como um alerta de que não pode vacilar. Hoje, é seminarista, missionário e voluntário no projeto.  “O principal que nós oferecemos aqui é a palavra de Deus. Então nós convidamos para vir, ouvir a palavra e na sequência o alimento – porque não adianta você dar só a palavra e não ter o alimento – porque é o alimento que mantém a pessoa de pé.”
Numa terça-feira pela manhã acompanhamos o trabalho realizado por Lodemir e outros 22 voluntários em um galpão de paredes pintadas de azul e decorado com fotos de ex-dependentes químicos que agora colaboram com a causa.
Mesas e cadeiras de plástico dispostas próximas ao palco, usado para apresentações musicais, estão ocupadas por dezenas de moradores da Cracolândia. O café da manhã, servido minutos antes, inicia as atividades do dia, que incluem o banho e a troca das roupas sujas por novas peças recebidas através de doações. As camisetas verdes e amarelas dos voluntários se misturam às pessoas que aguardam sua vez no atendimento. Há dificuldade em mantê-los organizados, muitos vão embora logo após se alimentar. Os que continuam sentados, em sua maioria, são homens, de pele negra, aparência cansada e um olhar perturbado que deixa transparecer os efeitos da droga sobre cada um deles. O entra e sai é constante. Mais pessoas chegam empurrando carrinhos de supermercado cheios de objetos recolhidos do lixo. Outros se acomodam na calçada do lado de fora. Uma mulher loira, magra, tossindo de forma violenta não consegue caminhar até a fila para a ducha feminina. Ela esbarra em alguém, cambaleando se apoia na parede, parece estar a ponto de vomitar. Lodemir a segura pelo braço, oferece água e a acomoda num banco. Todos recebem o mesmo tratamento e atenção, uma forma de tentar reinseri-los no convívio social. Aqueles que entendem a necessidade de assistência médica e psicológica são direcionados para a casa de tratamento localizada no interior de São Paulo. Nas contas de Lodemir, a presença da missão batista tem colaborado para que o número de usuários de drogas no entorno da Luz diminua. Já são aproximadamente seis mil pessoas atendidas e resgatadas das ruas. Algumas recuperaram o contato com os familiares, voltaram para os seus estados de origem ou se tornaram voluntários em outras regiões do país. Uma obra paciente, que se mantém graças à colaboração daqueles que doam seu tempo para ajudar o próximo.
Mas os agradecimentos não podem ser reservados apenas à Cristolândia. A situação aparentemente controlada, se assim podemos dizer, das ruas próximas à sede também é resultado do trabalho de segurança da empresa Porto Seguro, que não permite a presença e permanência de usuários de drogas nas calçadas que circundam o prédio. A medida, adotada até mesmo pela igreja vizinha, é criticada por todos os que enxergam na fé um instrumento de salvação para os dependentes do crack. “Se você não quer que a pessoa deite na sua calçada, alguma coisa você tem que fazer por ela. Não é colocando guarda ou segurança na porta do comércio e do Liceu que você vai resolver o problema. São pessoas que precisam de ajuda, o lugar dessas pessoas que estão na rua é dentro da igreja.”
Seguimos a visita pelo galpão, enquanto alguns olhares curiosos são direcionados a nós. Lodemir mostra fotos de outras atividades que também acontecem por intermédio da Cristolândia, como aulas de ballet, música, artes marciais e futebol. Essa é a deixa para que um morador da Cracolândia se aproxime. Gesticulando e falando rápido, o garoto – que aparenta ter 20 anos – diz que pretende voltar a frequentar as aulas de luta assim que “conseguir vencer o maldito crack”. Nas fotografias fixadas na parede, uma pessoa se destaca. Apontada pelo nosso guia, ele conta que a mulher de pele morena e cabelos negros, também ex-usuária e que agora trabalha na missão, é sua namorada e que irão noivar em alguns dias. A celebração acontecerá na própria sede, assim como o casamento programado para 2015. A escolha do lugar não poderia ser diferente. Foi onde se conheceram, onde recuperaram – além dos laços familiares – a dignidade e autonomia sobre suas ações, antes submetidas aos danos causados pela droga. Sorridente, ele nos convida para ambas as cerimônias. Comovida com a gentileza, me despeço com a promessa de voltar.
Enquanto refaço o caminho para a estação da Luz, vejo aquele mesmo garoto – que acabara de relatar a sua vontade de largar o vício e retomar o judô – se aproximar das calçadas onde usuários aquecem as pontas de seus cachimbos.
Ainda não foi dessa vez.

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Crédito da fotografia: Autores

Capítulo do livroVizinhos da Cracolândia: A memória de quem viu um mundo paralelo se erguer na região da Luz

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