Angola: o que ninguém conta!

in Ed_2_jan/mar.2017 por and

Quando decidimos escrever sobre Angola, país de origem das personagens deste livro, não tínhamos ideia do quão embaraçoso seria desenvolver e compartilhar algumas informações. O obstáculo se deu parte pela distância geográfica, e parte pela grande dificuldade em encontrar documentos precisos e confiáveis. Mais que pesquisas e relatos, a convivência e o laço que criamos com as angolanas e auxilio que recebemos da jornalista pela Fiam e pós-graduada em relações internacionais pela Rio Branco, Jéssie Panegassi, foram fundamentais para que conseguíssemos colocar no papel um apanhado de elementos e fatos relevantes acerca do país.

Angola, como a maioria dos países independentes da África, abriga em seu território diversas culturas, línguas, costumes e origens diferentes.Carregando uma característica comum entre os brasileiros, o país tem a língua portuguesa como a oficial, mesmo ainda possuindo 42 idiomas regionais espalhados. Conversando com as angolanas, descobrimos que a mesma palavra pode conter vários outros significados ou até mesmo nem existir em determinadas províncias.

A cultura angolana também é de se chamar atenção e, assim como os tantos idiomas falados, varia de local e comportamento. Aliás, a influência angolana no Brasil aparece em uma série de traços culturais brasileiros: nas músicas, nas manifestações religiosas, na culinária e até na conduta.

O país é construído por diversas tradições antigas e que ainda são passadas de geração a geração, como os rituais que antecedem o casamento, por exemplo. O famoso alambamento é mais importante que o próprio casamento civil ou religioso, pois consiste numa série de rituais realizados por parte da família do noivo e da noiva.São oferecidos em troca do pedido de casamento. E, se as ofertas forem aceitas, é sinal de que a união será celebrada por vários dias de confraternizações.

Outra característica muito presente e facilmente identificada no país é a religião. Segundo dados divulgados pela Embaixada de Angola, a maioria da população professa a religião católica e o restante são de outras religiões como o Islamismo e o Bantu.

Além disso, o país tem uma paisagem de tirar o fôlego de qualquer turista. Não só Angola, mas o continente africano também, por ser conhecido pela sua ampla beleza natural.

Apesar de todo esse primeiro contexto exuberante, não há como prosseguir sem também mencionar as milhares de tragédias ocasionadas pela guerra civil, que Angola viveu durante quase trintas anos de sua história e que sofre ainda com as consequências impulsionadas pela guerra, pela fome e a miséria.

Na história de Angola, existem dois episódios que marcaram para sempre a memória dos mais de 25 milhões de residentes no país, segundo dados atualizados em março deste ano. O primeiro foi ainda em 1975, ano em que foi conquistada a tão esperada Independência de Portugal, sem direito a comemorações, já que, na época, os grupos guerrilheiros[1], que defendiam e buscavam obter essa liberdade, intensificaram ainda mais as intrigas entre si.

A segunda e maior discórdia ocorreu em 1992, quando havia sido criado um acordo de paz entre os grupos MPLA e Unita, que levou à realização das primeiras eleições do país. O consenso era de paz e harmonia entre as partes interessadas pela política na época, mas não foi exatamente assim que aconteceu após a derrota de Unita nas urnas. A partir disso, mais uma guerra sangrenta foi decretada.

Em Angola, o tempo parece sofrer um retrocesso.Os interesses e o bem-estar da população são afetados diariamente pela ausência de recursos econômicos, educacionais, políticos, sociais e de saúde. Prova disso está na falsa riqueza que o país possui por meio dos recursos naturais como o diamante e o petróleo. Mas a fortuna de fato está longe de se tornar uma realidade.

Pode parecer bizarro e controverso, mas ainda existem milhares de cidadãos angolanos que sobrevivem sem saneamento básico e com a total falta de energia elétrica em suas casas. Isso porque, de acordo com dados de junho deste ano, divulgados pela Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Angola é considerado o segundo maior produtor de petróleo da África.

“Rica em petróleo, Angola passa fome e tem pior taxa de mortalidade infantil do mundo”. Manchetes como essa disfarçam a real situação do país. Enquanto a fome bate na porta dos mais de dois terços da população que, ainda moram em favelas e assentamentos rurais, os membros da elite são atendidos pelas melhores lojas, mercados, bancos e concessionárias.

De acordo com o Ministério da saúde de Angola, a desnutrição infantil atrofia o crescimento populacional e causa metade das mortes em crianças com menos de cinco anos. Atualmente, a expectativa de vida da população chega a ser de apenas 46 anos.

E se o cidadão for pobre e tiver que depender de atendimento em hospitais públicos ou de alguma medicação, então terá de enfrentar o precário sistema de saúde oferecido pelo estado. No setor público, há um sistema de coparticipação nos custos de saúde, o que dificulta o acesso de milhares de cidadãos por não possuírem recursos financeiros de arcar com os custos de parte das consultas, exames e remédios. Além disso, o sistema de saúde falha em aspectos de higiene e legalidade, pois alguns dos postos de atendimentos oferecem medicamentos falsos ou fora do prazo de validade

A população ainda sofre com o quadro epidemiológico no país, que é dominado pelas doenças transmissíveis, diarreicas e respiratórias, entre tantas outras. Enfermidades que matam desproporcionalmente todos os anos, milhares de adultos e principalmente crianças.

Já ouviu falar que lugar de criança é na escola?Em Angola, esse ditado não surte tanto efeito. São mais de 260 milhões de crianças que estão fora da escola, 61 menores de seis e onze anos e 202 adolescentes entre 12 e 17 anos, segundo dados da Unesco. O motivo é ainda mais preocupante, são crianças que não possuem outra escolha a não ser trabalhar para, em troca, conseguir o pão de cada dia. Isso quando recebem algo, pois são facilmente passadas para trás e acabam realizando trabalho escravo.

Todos os problemas mencionados nos parágrafos anteriores, parece ter maior intensidade em Luanda. Segundo depoimentos das angolanas, a vida em algumas províncias, embora pobre, ainda é melhor que o caos urbano que é vivido nos bairros da capital, que são preenchidos por mais de oito milhões de habitantes amontoados em pouco espaço. Luanda cresceu desproporcional e sem planejamento, o que reflete em sérios problemas de moradia, luz elétrica, saneamento e transporte.

Nas mãos de José Eduardo dos Santos, presidente desde 1979, está o desafio de reconstruir a infraestrutura de Angola, à medida em que o país precisa reverter o crescimento econômico em benefícios para toda a sociedade que depende de medidas urgentes e inadiáveis para sobreviver.O país tem se desenvolvido aos poucos, ao longo dos anos, mas ainda há um longo caminha a ser percorrido.

Em Angola, os problemas recorrentes pós-guerra e toda questão de reestruturação, não são os únicos fatores que ganham as páginas de história do país.A violência física e sexual contra meninas e mulheres também são alarmantes. De acordo com a Organização da Mulher Angolana, uma em cada três mulheres sofreu ou sofre algum tipo de violência e, na maioria das vezes, por um parceiro íntimo. A OMA acredita que a violência contra mulheres é uma questão cultural enraizada no país e que deve ser alterada com urgência, começando a incluir os programas de conscientização no plano de ensino das escolas angolanas.

Outros problemas preocupantes e que estão sob atenções no Instituo Nacional da Criança é a violência e o abuso sexual infantil, bem como o abandono e a negligência à paternidade. Há também a questão do trabalho escravo feito por menores. Só em 2015, o INAC registrou mais de três mil casos em que crianças entre 12 e 17 anos, trabalhavam mais de 12 horas por dia e em condições deploráveis. Isso explica a ausência de muitas crianças na escola, o lugar onde elas deveriam realmente estar.

Infelizmente, os problemas mencionados nos capítulos anteriores não estampam as primeiras páginas dos jornais, se quer ganham espaço na mídia. A própria imprensa interna costuma apenas ressaltar o melhor lado da história, vetando a real situação em que o país vive nos dias atuais.
Entretanto, apesar da dura realidade, Angola não é apenas cercado pelos estorvos e a desvalorização, é igualmente por contos de superação e positividade.A guerra deixou rastros de destruição e miséria, mas também trouxe esperanças de um recomeço.
O povo angolano parece seguir com otimismo mediante às dificuldades, com o objetivo de reconstruir um país onde todos possam desfrutar dos benefícios e de seu desenvolvimento.

[1]  Os grupos guerrilheiros eram os: MPLA, Unita e FNLA.

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Crédito da imagem: Autoras

Capítulo do livroO Rosto angolano do Refúgio — mulheres protagonistas em tempo de violência e paz

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