Histórias, artigos e reportagens

Os fisiólatras

in Ed_5_out/dez.2017 por

Quando resolvi interrogar o hierofante Magnus Sondhal, sabia da fisiolatria o que os prosélitos deixavam entrever em artigos de jornal cheios de nomes arrevesados e nos comunicados, nos copiosos comunicados trazidos aos diários por homens apressados e radiantes. Pelos artigos ficara imaginando a fisiolatria um conjunto de positivismo, ocultismo e socialismo; pelos comunicados vira que os fisiólatras, quase todos doutores, criavam cooperativas e academias. Entretanto o Sr. Magnus Sondhal certa vez à porta de um café definira para meu espanto a sua religião.

— A fisiolatria não é um culto no sentido vulgar da palavra, mas uma verdadeira cultura mental. É, antes, a sistematização racional do processo espontâneo da educação dos seres vivos, donde resultaram todas as aptidões, mesmo físicas e fisiológicas, respectivamente adquiridas.

Pus as mãos na cabeça assombrado. Magnus tossiu, revirou os olhos azuis.

— A fisiolatria baseia-se, como toda a reforma sociocrática-libertária, na sistematização da lógica universal ou natural que o hierofante + SUN intitula ortologia.

— Ortologia? — fiz sem compreender.

— Do grego orthos, logos — reta razão. A religião também é chamada ortolatria, ou verdadeira cultura, como ortodoxia significa verdadeira doutrina. Os fisiólatras pretendem fazer uma remo-delação de todas as coisas humanas, não limitando a sua ação à modificação dos conceitos.

— Mas o remodelamento geral é possível? Sondhal sorriu com calma:

— Nós somos onibondosos, oniscientes e onipotentes.

— Os atributos de Deus.

— Nós nos intitulamos os verdadeiros deuses. A reforma abran-ge as opiniões, os costumes, o Homem e a própria Terra.

Arregalei os olhos, pus o pé bem firme no chão, passei o len-ço trêmulo na fronte e olhei os verdadeiros deuses. Para o que falava, envolto na sobrecasaca, com uma barbinha rala e o nariz ao vento, escavoquei a religião do ideal divino e não lhe achei comparação. O outro torcia um bigode sensual por cima do lábio rosado.

— Com que então deuses? — Dera-me de repente a vontade de ser também onisciente e onipotente. – Mas que é preciso para eu ser também?

— A propaganda toma um cunho secreto. Os aspirantes à Ortologia têm de passar pela iniciação esotérica, que custa, além das provas morais, quinhentos mil réis em moeda corrente.

Era relativamente barato, e eu pensava em fazer uma redução shilockiana, quando Magnus começou a desdobrar a beleza útil da vida fisiólatra.

A iniciação dá entrada na Universidade Ortológica resu-mida no hierofante, a qual se intitula Maçonaria + Católica. A Maçonaria Católica divide-se em lojas, cujo conjunto, em três graus, constitui o respectivo templo. Os aspirantes representam as lojas, o templo só pode ser representado pelo hierofante ou por um areopagita.

— Onde esse templo?

— Os fisiólatras, os que praticam a magia ortológica, não preci-sam de local determinado. São os novos homens, fazem excursões pelos prados, montes e lagos em Fraterias Estéticas, Filosóficas ou Ortológicas, conforme o grau do ludâmbulos.

Ludâmbulos?

— Uma palavra da língua universal!

— O volapuck? O esperanto?

— Não, uma língua inventada por mim, o Al-tá.

— Mas que vem a ser o Al-tá?

— Aplicando a Ortologia (ou Lógica Universal) aos fatos da Linguagem, verifica-se que os elementos fonéticos, sons e ento-nações (ou consoantes e vogais) são por toda a parte idênticos. Deduz-se que são oriundos das mesmas impressões e resultantes das mesmas aptidões expressionais. Colocando em sínese, desco-bre-se que os sons, que exprimem relações, formam uma escala semitonal, como a da música, e composta de treze notas, ou graves primárias como todas as escalas, aliás: U (grave fundamental), A (dominante e geratriz) e I (sensível superior) estabelecem todas as relações sinésicas:

U A I(eU)  
Gênese Megaforema Metaforema
Origem Crescimento Transformação
Passado Presente Futuro
Corpo Espaço Movimento
Sentir Pensar Agir
Opressão Libertação Aspiração
Escuro Amarelo Rubro e Branco
etc. etc. etc.

 

Quanto às Entonações, essas formam três teclas, donde três escalas, também, analógicas mas distintas:

Aplicando a Sínese ortológica às Teclas orais, como se fez relativamente aos Sons, temos:

Detalhando, enfim, o valor fracional dos fonemas em geral, obtém-se, por dedução lógica, a expressão natural, de qualquer espécie de impressão: sensacional, emocional ou acional… e a Língua Universal está, enfim, racionalmente instituída.

Exemplo perfunctório:

K é a raiz de Corpo, concreto etc.

A significa o atual e ação, donde:

Ativo: K A – O Corpo que se apresenta e se move.

e

Passivo: A K – O Corpo que é impelido ou sofre a ação.

M é o símbolo do sentir e agir, donde:

Passivo: A M = Eu = amo = sou…

e

Ativo: M A = Mu = mover = mãe, mulher… criar.

Eu não compreendera muito bem, não compreendera mesmo nada. Magnus Sondhal porém foi íntimo e educador.

—Vou dar-lhe alguns nomes esotéricos dos iniciados da

Maçonaria Católica. Sobem a milhares, além de alguns que foram condenados ao olvido, ao au-tá…

Fez uma pausa, depois, como quem se confessa:

— Eu devo dizer esotericamente, o espírito que preside à

Propaganda da Razão. A minha emancipação de Ortólogo vai a um extremo inacessível para a totalidade dos homens coevos. Por isso, tudo que eu faço toma o aspecto joco-sério, desde o deboche até o sagrado, desde a Orgia até o Culto da Natureza!… De fato estou exterminando pelo ridículo todas as velhas e caducas crenças e instituições e todos os preconceitos, mesmo científicos e filosóficos!

Em mim a Consciência superior, a dignidade e a nobreza destruíram por completo toda espécie de Veneração, Respeito ou Tolerância!… Mas, voltemos aos nomes esotéricos. 

“Todo Iniciado na Maçonaria Católica toma um Nome, por sua própria escolha, em substituição ao nome, sem sentido, que lhe deram seus pais Gorilhas. Esse novo Nome é a síntese de seu verdadeiro Ideal ou Aspiração superior para o Progresso. Em torno desse novo Símbolo o Iniciado constrói a sua nova Existência Subjetiva, isto é, o seu KARMA. Quem souber identificar-se com o seu Nome de Regenerado, está, ipso facto, isento de toda e qualquer perturbação subjetiva, causada habitualmente pelos ataques malévolos da Canalha humana. Mas a adoção voluntária do novo Nome é, além disso, um ato belamente revolucionário, e um protesto solene contra todas as velharias e convenções hipócritas e perversivas. Quem escolheu o seu próprio NOME também rompeu, ipso facto, com todas as imposições e Imposturas que tendam a tiranizar a sua Vontade e tolher a sua Liberdade de Indivíduo!… Mil outros motivos há que advogam esse Rito da Adoção”.

— Os nomes esotéricos! – supliquei, vendo que se eternizava num misterioso falar.

Ele sentou-se com um papel e um lápis.

— Antes de tudo, é preciso conhecer o esquema da figura da Lei Universal, ou Ciclo da Matéria, donde se deduz a Ortologia, ou a Sabedoria Universal.

Diante daquele lápis hostil, tremi.

— Os nomes sem figuras, Magnus.

Ele coçou a ponta do nariz.

— Ei-los:

SUN, nome do HIEROFANTE (+) atual; Significa: – Sol no

NADIR, ou Sol posto e, por extensão, Luz Invisível, isto é, Sol subjetivo.

Etimologia: – S… símbolo de Fonte e de Brilho em sua máxima intensidade e, portanto, símbolo de SOL; – N… símbolo de infinito e indefinido, de espaço e de espírito, portanto: num ponto indefinido do Espaço. A quer dizer: presente, ou visível, donde SANSol acima da horizonte visual. I significa o que está para vir e o que sobe, donde SIN o Sol que vai nascer ou nascituro. U quer dizer o que está embaixo, donde – SUN o Sol no Nadir.

BLUM-SAN-URA Flor que o Sol gerou. Nome de um Areopagita, cujo símbolo é a cruz.

AM-VAViver para o Amor. Nome de outro Areopagita em São Paulo.

UN-ANO espírito de Origem, engerador. Nome de outro Areopagita, em Minas.

GVAM-ILViver, Amar e ser Livre. Nome de um iniciado do 2º grau.

AL-GAI Aquele que quer que todos folguem. Nome de um cientista bom e inteligente. Iniciado do 2º grau.

VAR-UN A vida que palpita imperceptivelmente no seio da Matéria. Nome de um distinto iniciado do 1º grau.

SIR-US O Filho da Aurora Boreal. Nome de um companheiro dedicadíssimo que propulsionou a Propaganda da Razão no estado do Paraná.

GAM-ARAquele que vai alegrar-se e folgar agindo com entusiasmo pela Regeneração Humana.

Um instante calamo-nos. O hierofante Sun limpava o suor.

Mas dentro em pouco continuou a falar.

— Temos – disse – idealizados quatro templos para serem erigidos no centro de cada uma das quatro partes em que dividimos a Terra. Os templos chamam-se os templos da Razão.

Também em épocas que todos chamam das grandes transformações, os homens deram templos à Razão encarnada.

— Há muita gente iniciada? – indaguei, afundando em amargas comparações históricas.

— Muita. Só agora, porém, é que a iniciação deixou de ser grátis.

Não imagina como progredimos. Há quatro ou cinco anos que em Minas Gerais se fazem festas sociolátricas. As peripateias ou excursões cultuais são comuns em todos os estados, máxime no Paraná.

— E aqui?

— Vamos entre as árvores discutindo e conversando.

Platão! Aristóteles! Jesus! Dellile! Procurei acalmar o meu estado nervoso. Assistira à missa negra, vivera entre os negros orixalás, que sobre o opelé dizem a vida da gente, ouvira os espíritas, os ocultistas, os gnósticos católicos. Essa reforma desorganizava-me.

— Mas isso tudo foi inventado pelo senhor?

— Foi.

— E desde quando pensa na reforma?

— Desde a idade de cinco anos, em que aprendia a ler sozinho.

Só porém em 1884 é que cheguei aos resultados práticos em Cataguases.

— É brasileiro?

— Descendente de islandeses, os verdadeiros descobridores da América.

Recolhi meditando a questão. Aquele homem que aprendera a ler com tenções de reformar a sociedade, a ortologia, as peripateias, a reforma da Terra – tudo isso assustava. Refleti, entretanto.

Magnus era um vasto saber, calmo e prático, formado em Cabala, tendo viajado o mundo inteiro.

Se apenas nessa qualidade dissesse ter inventado o moto-contínuo nas asas das borboletas, eu, deplorando-o, levá-lo-ia ao hospício. Mas Sondhal inventara uma religião, a religião que é o bálsamo das almas, uma religião brasileira, e, como Jesus à beira do lago Tiberíade, ensinava aos iniciados à beira da lagoa Rodrigo de Freitas e da lagoa dos Patos. Era mais um profeta, venerei-o; e assim fazendo quis saber quem comigo o venerava. A fisiolatria é uma religião de doutores; numa lista de 200 ortólogos, sessenta por cento são bacharéis.

As listas são feitas com pompa, e em cada uma eu li: Drs. Toledo de Loiola, Tavares Bastos, Jango Fischer, Flávio de Moura, Luís Caetano de Oliveira, Antônio Ribeiro da Silva Braga, Adolfo Gomes de Albuquerque, Floripes Rosas Júnior, José Vicente Valentim, Ulisses Faro, Barbosa Rodrigues Júnior… Uma série interminável de bacharéis!

Tantos doutores devem assegurar a doutrina doutíssima. Fui então procurar o hierofante no seu templo, que tem percorrido várias casas na Cidade Nova. Magnus Sondhal recebeu-me com o seu inalterável sorriso e o seu inalterável pincenê.

— Há tantos doutores na sua religião, hierofante, que eu a considero.

— Pois, ergonte, uma das ideias da minha religião é acabar com os doutores!

Sentamo-nos divinamente, e eu o interroguei:

— A sua religião tem qualquer coisa de positivismo?

— Fui apóstolo da Humanidade seis anos. Só depois é que comecei a propaganda da União Universal, a princípio com um filósofo dinamarquês, depois com os Drs. Adolfo de Albuquerque, Silva Braga e outros Areopagitas. A fisiolatria transforma as palavras e expressões das outras línguas, transformando as instituições humanas existentes e inexistentes em fatos positivos. Os fenômenos sobrenaturais tornam-se até sensíveis.

— A reforma é então geral?

— Até no vestuário. Acredita o senhor que no futuro continuaremos a usar sobrecasaca? Pois, não!

As roupas dos ergontes serão determinadas pelas estações do ano com um cunho simbólico e as cores tiradas da figura universal.

No verão, por exemplo, 1ª estação, macrofísica e que representa o dia da vida, usar-se-ão as três cores fundamentais; no outono, 2ª estação, a tarde da vida, cores sombrias; no inverno, 3ª estação, microfísica, a noite da vida, roupas negras, e na primavera, a 4ª estação, roupas brancas para corresponder ao albor da existência…

— Muito poético. As nossas casacas passarão a ser empregadas apenas nos bailes de máscaras, como fantasias de gosto. Também, que seria do vestido de Maria Stuart se não fosse o carnaval?

Consolemo-nos com a homenagem dos futuros ergontes!

Enquanto essas loucuras eram ditas, Magnus Sondhal sorria.

— Uma religião tão nova deve ter o seu culto especial.

— Tem, com efeito: o kratu, ou culto público, e a magia, ou culto íntimo.

O kratu tem um quadro sinótico. Ei-lo:

Donde reflexão… consciência.. magia

A palavra MAGIA é empregada no sentido de sua etimologia altaica, isto é, derivada de MAC – Força ou Ação e I – sobre ou para o Futuro. Representa o estado superior da Vida, em que o Espírito ou a Razão dirige a Força Inconsciente.

A magia começa a revelar-se nas próprias iniciações maçônicas pela adoção de um nome esotérico que liberta das más influências. Só eu a posso empregar, porque sou o único a conhecer a hiperquímica ortológica, ou as leis naturais das influências psíquicas.

A hiperquímica, de hyper e da língua universal kim, que significa a parte invisível e indestrutível da matéria, tem duas ciências preliminares: a alquimia, ou tratado da reação das matérias em estado das correntes puras, e a quimia. O princípio alquímico é que a matéria é una, vive, evolui e se transforma. O princípio unitário Lhoma entra como causa em todas as reações e por ele se explicam o fenômeno microfísico das funções cerebrais, a função das imagens interiores e a influência da moral sobre o físico.

Mas tudo isso está nos nossos livros: A reforma sociocrática e a maior evolução do mundo, O catecismo ortológico, AArte de Enriquecer ou extinção do pauperismo pela instituição da plutometria em substituição à plutocracia, A explicação de Deus ao papa, A pré-história segundo a ortologia e outros volumes. O essencial, acha-se, porém num livro manuscrito, que não se imprime: O catecismo esotérico.

Depois paternalmente o hierofante disse:

— Venha hoje ver uma sessão de magia. Nós comemoramos a morte de um iniciado. O templo é uma sala, mas é de dever deduzi-lo da figura da Lei Universal ou Al-Miz: ao norte a loja azul, ou do 1º grau; a este a loja amarela, ou do 2º grau; ao sul a loja rubra, ou do 3º grau; a oeste o dumma, ou sala negra, no canto o templo ou empíreo. O dumma e o empíreo significam o branco e o negro, dois elementos antitéticos do Binário Universal… Venha às 11:30.

Eu fui. Era uma noite úmida, de chuva, no dia 5 de agosto. O iniciado que morrera, meu amigo, um gênio musical, passara pela vida agarrado a todas as fantasias. Eu fui e delirei tranquilamente.

Tínhamos combinado estar na pensão de Sondhal. Quando lá cheguei, encontrei treze homens de chapelão desabado e manto negro. Pareciam conspiradores. Abri o manto de um deles e vi que estava forrado de seda roxa; abri o de outro, também, e todos tinham varinhas na mão, onde brilhavam ametistas, a pedra da magia! Reparei então que o hierofante era um deles.

— De que é feita essa baguete? – inquiri.

— De uma liga metálica que é um segredo alquímico! – respondeu uma voz. E, com o hierofante à frente, todos deslizaram pelo corredor escuro. Eu os seguia como a sombra dos seus mantos. De repente, pararam a um sinal seco e eu retive um grito. Na extremidade superior do cetro do hierofante, começava a bruxulear uma luz fosforescente.

— Meu Deus!

— Cala-te, é a luz física, e o au-lis!

Todos os magos ergueram verticalmente as baguetes estendendo o braço direito para o ar, e na extremidade de cada uma, como uma misteriosa gambiarra de vaga-lumes, o au-lis acendia a sua fulguração indizível. Nas copas dos chapéus dos magos vibrava o telegormo, que transmite as palavras pensadas. A luz porém cessou, as varas abateram-se e os treze saíram para a rua como simples transeuntes.

No curto trajeto do hotel à sala do templo, eu tive a impressão de um ser à parte num mundo à parte, e quando cavamente a porta se fechou num cavo reboo e subimos aos tropeços as escadas, pareceu-me cair outra vez, na amada vida. A luz reaparecera.

Na sala, cheia dessa luz, o hierofante subiu os três degraus do altar, voltou-se para os magos, deu na ara três pancadas e falou.

Era a prece da Evocação. Agarrei-me a um portal, tremendo. Com toda a solenidade, o homem foi ao outro canto e fez a segunda prece, a Invocação. Depois, voltado para o oriente, disse a Efusão.

Terminado que foi, sentou-se. Reparei então que havia um estrado e em cada canto sentavam-se quatro magos.

— Aquele estrado? — fiz num sopro.

— É o palco dos Fantasmas, ou lig-oma!

De novo três pancadas bateram. O hierofante, em pé, fez um gesto sagrado, colocando a mão esquerda sobre o coração, fonte do Viver e do Sentir, e a direita, ou da ação, na fronte, centro psíquico.

Depois um gesto para o ar e para a fronte indicou o porvir e o ideal.

Todos os magos bradaram:

Au-ár! An-ár!

E a voz do hierofante abriu na treva:

— “Pobre e triste humanidade de mortos!… Pressentiste o poder da alma humana, e inventaste a invocação, o culto e a prece!… Mas, a quem te dirigias tu? – As ficções impotentes!

“Não conhecias a matéria no seu estado unitário de Lhoma, embora teus grandes filósofos chegassem quase a determinar sua existência.

“Que eram o culto do Lhoma na Pérsia antiga e o do Soma, na Índia, senão o grande vislumbre da grande magia fisiolátrica!…

“Mas agora o Universo nos está revelado, em todas as suas maravilhosas manifestações: – alquímicas, químicas e hiperquímicas!…

“Pelo Cérebro, abalamos o Lhoma, que penetra toda a Matéria orgânica ou inorgânica!…

“E o Cérebro é um universo microfísico, onde os átomos valem os astros do espaço sideral!…

“E lá dentro do crânio há luz, porque é do Lhoma tenebroso que, por toda parte, ela se gera?…

“Que mais pode surpreender ao Ortólogo?!… Onde pode haver um canto no Universo que sua Vontade não penetre?!… Onde um Ser ou Fato que sua Microtagia não desvende?!…

“Homens mortos!… Vítimas da Feitiçaria teolátrica e da negra magia das forças brutas e inconscientes da Matéria!… Sede eternamente malditos!… Mostrai-vos ali! no palco dos fantasmas, em toda nudez do vosso hediondo Sofrimento!…”

Eu bati os dentes com um frio que traspassava os ossos. A luz acendia de vez em quando, e naquele estrado, onde os espíritos mais deviam estar, eu via o vazio, o vazio horrível, o vazio doloroso.

— Surgi. Vós também, ó Heróis do Bem — continuara o mago — , que vivereis eternamente, impulsionando os Progressos que só a Razão inspira!

— Ei-los!… Eis os quadros da vida humana!… torpe, miserável!…

— Quem é aquele sublime LIC-UR, cercado de Amores e de Harmonias, e cuja presença de Luz dissipa e dissolve os tenebrosos e estúpidos NUROS corruptores?!…

— É o SAN-A’R..

— Ei-lo, sorridente e vitorioso!… vitorioso da própria Morte!

— Ei-lo sublime que nos aponta o Futuro, onde fulgura também a nossa suprema Vitória!

— Assim como ele anulou a corrupção dos Mortos, nos quadros telefênicos do Espaço sideral, nós também anularemos a corrupção dos Vivos decadentes, que são de mais na superfície do Planeta!…

De mais! os que são de mais! eu ali dentro estava de mais! Então abri a porta, saí, olhando para trás, aterrado do san-ár; dos nuros, desci agarrado aos balaústres da escada e quando sentei na soleira da porta, fatigado, com o cérebro vazio, senti que suava e que me ardiam as faces.

No outro dia encontrei o fisiólatra Magnus acompanhado de vários iniciados.

— Vou fundar uma Universidade no Liceu de Artes e Ofícios.

Não deixe de ir assistir às conferências preparatórias.

— Mas ontem, ontem que fizeram vocês?

Houve uma pausa.

— Meditamos até de manhã à beira da Sabedoria para que a Sabedoria viesse.

E Magnus Sondhal, com um volume de Nietzsche debaixo do braço, seguiu com os iniciados pela rua afora, como se fosse um ser natural…

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Crédito da imagem: CC0 Public Domain

Capítulo do livro: “Religiões no Rio”, seção “No mundo dos feitiços”. Obra de Domínio Público.

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