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A casa das almas

in Ed_5_out/dez.2017 por

Os negros “cambindas” do Rio guardam com terror a história de um branco que lhes apareceu certa vez em pleno sertão africano.

Quando o rei deu por ele, que por ali vinha calmo, com as suas barbas de sol, precipitou-se mais a tribo em atitude feroz. O branco tirou da cinta um pequeno feitiço de metal e prostrou morto, golfando sangue, o babalaô.

Exu! Exu! — ganiu a tribo, recuando de chofre.

— Quem és tu, santo que eu não conheço? – perguntou trêmulo o poderoso rei.

— Sou o que pode tudo — bradou o branco. — Vê.

Estendeu a mão de novo e matou outros negros.

Só te deixarei em paz se me mostrares todos os teus feitiços.

Sua Majestade, apavorada, levou-o à tenda real e durante o dia e durante a noite, sem parar, lhe deu tudo quanto sabia.

— Perdoo-te — disse o branco. – Adeus! Levo para o mistério a rainha.

Aconchegou o feitiço, que parecia Egum, o deus da guerra, no seio da preferida, deixou-a cair e partiu devagar pela estrada afora…

Não precisei dos meios violentos do Caramuru da África para saber do mais terrível mistério da religião dos minas: o egum ou evocação das almas. Naquela mesma noite em que encontrara Antônio, o negro serviçal levou-me a uma casa nas imediações da praia de Santa Luzia.

— Em tudo é preciso mistério — dizia ele. V. S. vai à casa do babaloxá, finge acreditar e depois é convidado para uma cerimônia na casa das almas. Poderá então ver o segredo da pantomima. Quem descobre o segredo do egum morre. Eu me arrisco a morrer.

A sua voz era trêmula.

— Tens medo?

— Não, mas, se morrer amanhã, todos os feiticeiros dirão que foi o feitiço. Do egum depende toda a traficância. O negro parou.

— Não imagina! Abubaca Caolho, que mora na Rua do Resende, é um dos tais. Quando há uma morte, vai logo dizer que foi quem a fez. Se fôssemos acreditar nas suas mentiras, Abubaca tinha mais mortes no costado que cabelos na cabeça. V. S. já o viu. É um negro que usa gravata do lado e pontas — as roupas velhas dos outros…

Apotijá é outro.

— Mas há desse gênero de morte, Antônio? – indaguei eu acendendo o cigarro com um gesto shakespeariano.

— Ora se há! Vou provar quando quiser. De morte misteriosa lembro a Maria Rosa Duarte, sogra do mama Pão Baltazar, alufá, muito amigo de um político conhecido; o Salvador Tapa, a Esperança Laninia, Larê-quê, Fantuchê, o Jorge da Rua do Estácio, Ougu-olusaim… Todos morreram por ter descoberto o egum. Na Bahia, então, esses assassinatos são comuns. Hei de lembrar sempre o velho feiticeiro Aguidi, coitado! Era dos que sabem. Um dia, farto de viver, descobriu a traficância e logo depois morria no incêndio do Tabão, com os braços cruzados, impassível e a sorrir. Aguidi na minha língua significa: o que quer morrer… Ele quis.

Pela praia de Santa Luzia o luar escorria silenciosamente, e de leve o vento, sacudindo as folhas das árvores em melancólico sussurro, entristecia Antônio.

Ah! meu senhor. Não é só por causa do egum que negro mata. Quando as iauô não andam direito, quando não fingem bem, quase nunca escapam de morrer. Há vários processos de morte, a morte lenta, com beberagens e feitiços diretos, a morte na camarinha por sufocação… Muitos negros apertam uma veia que a gente tem no pescoço e dentro de um minuto qualquer pessoa está morta. Outros dependuram as criaturas e elas ficam bracejando no ar com os olhos arregalados.

A Morte e a Loucura nem sempre se limitam ao estreito meio dos negros. As beberagens e o pavor atuam suficientemente nas pessoas que os frequentam. A Assiata, uma negra baixa, fula e presunçosa, moradora à Rua da Alfândega, dizem os da sua roda que pôs doida na Tijuca uma senhora distinta, dando-lhe misturadas para certa moléstia do útero. Apotijá, o malandro da Rua do Hospício, que aproveita os momentos de ócio para descompor o Brasil, tem também uma vastíssima coleção de casos sinistros.

A Morte e todas as vesânias não são apenas os sustentáculos dos seus ritos e das suas transações religiosas, são também o meio de vida extracultural, o processo de apanhar heranças. Alikali, lemamo atual dos alufás, e Amando Ginja, cujo nome real é Fortunato Machado, quando morre negro rico vão logo à polícia participar que não deixou herdeiros. Alikali é testamenteiro de quase todos e bicho capaz de fazer amuré com as negras velhas só para lhes ficar com as casas. A certidão de óbito é dada sem muitas observações.

— Mas você conhece mais feiticeiros, Antônio?

— Pois não! O João Mussê, alufá feiticeiro tremendo, que mora na Rua Senhor dos Passos, 222 e é respeitado por todos; Obalei-ié, Obio Jamin, Ochu-Toqui, Ochu-Bumin, Emin-Oxum, Oumigi, Obitaiô-homem, Obitaiô-mulher, Ochu Taiodé, a Ochu-boeió, da Rua do Catete, Siê, Xangô-Logreti, Ajagum-baru, Eçu-hemin, Angelina, o ogan Conrado… Mais de cem feiticeiros mais cem…

– Quase todos com os nomes dos santos…

– Os negros usam sempre o nome do santo que têm no corpo…

Mas de repente Antônio parou entre as árvores.

– Temos ebó de Iemanjá. A negralhada vem aí. Se quer ver, esconda-se detrás de algum tronco.

Com efeito, sentiam-se vozes surdas ao longe, cantando.

O despacho, ou ebó, da mãe d’água salgada é um alguidar com pentes, alfinetes, agulhas, pedaços de seda, dedais, perfumes, linhas, tudo o que é feminino.

Detrás da árvore, pouco depois eu vi aparecer no plenilúnio a teoria dos pretos. À frente vinha uma com o alguidar na cabeça, e cantavam baixo.

Baô de ré se equi je-man-já
Pelé bé Apotá auo yo tô toro fym la cho
Ere…

Era o ofertório. Ao chegar à praia, na parte em que há uns rochedos, a negra desceu, depositou o alguidar. Uma onda mais forte veio, bateu, virou o vaso de barro, quebrou-o, levou as linhas, e todos balbuciaram, rojando:

Ie-man-já!

A santa aparecera na fosforescência lunar, agradecendo…

Depois os sacerdotes ergueram-se, reuniram, e nós ficamos de novo sós, enquanto o oceano rugia, e, ao longe, tristemente a canzoada ladrava.

— Ainda apanhamos o candomblé – disse Antônio. – É preciso que o babaloxá convide V. S. para o egum

Noutro dia, pouco mais ou menos à meia-noite, estávamos no ilê-saim ou casa das almas.

O egum é uma cerimônia quase pública, a que os feiticeiros convidam certos brancos para presenciar a pantomima do seu extraordinário poder. Esses curiosos fetiches, que para fazer o guincho de santo Ossaim amarram nas pernas bonecas de borracha, com assobio; cujos santos são um produto de bebedeiras e de hipnose, têm na evocação dos espíritos a máxima encenação da sua força sobre o invisível. Quando morre alguém, quando todos estão diante do corpo, um dos pretos esconde-se e dá um grito. No meio da confusão geral, então, mudando a voz, esse negro grita:

Emim, toculoni mopé, cá-um-pé, emim! Eu, que morri hoje, quero que chamem por mim.

Os donos do defunto arranjam o dinheiro para a evocação, pessoas estranhas ajudam também com a sua quota para aproveitar e saber do futuro. O babaloxá não faz o egum enquanto não tem pelo menos trezentos mil réis. Arranjada a quantia, começa a cerimônia.

Quando entramos na sala das almas, à luz fumarenta dos candeeiros a cena era estranha. Havia brancas, meretrizes de grandes rodelas de carmim nas faces, mulatas em camisa, mostrando os braços com desenhos e iniciais em azul dos proprietários do seu amor, e negros, muitos negros. Estes últimos, sentados em roda do assoalho, estavam quase nus, e algumas negras mesmo inteiramente nuas com os seios pendentes e a carapinha cheia de banha.

— Por que estão eles assim?

— Para mais facilmente receber o espírito.

Junto à porta do fundo, três negros de vara em punho quedavam-se estáticos. Eram os annichans, que faziam guarda ao saluin ou quarto dos espíritos. Ouvi dentro do saluin um barulho de pratos, de copos tocados, de garrafas desarrolhadas; um momento pareceu-me ouvir até o estouro forte do champanhe barato.

— Há gente lá dentro?

— As almas. Estão-se banqueteando. O banquete foi pago pelos presentes. Mas, psiu! Daqui a pouco começarão as cantigas, que ninguém compreende. Os africanos inventam nomes para a cena parecer mais fantástica.

Com efeito, minutos depois, aos primeiros sons dos atabaques, as negras bradaram:

Aluá! o espírito! – e romperam uma cantiga assustadora e trôpega.

Anu-ha, a o ry au od á
San-ná-elê-o ou baba
Locá-aló

A porta continuava fechada, mas eu vi surgir de repente um negro vestido de dominó com os pés amarrados em panos. Os três annichans ergueram as varas, o dominó macabro começou a bater a sua no chão, os xeguedês sacudiram-se, e outra cantiga estalou medrosa:

Lou-â gége ou-rou ó uá
Xó la-ri la-ri lari
Que què oura ô uchô
La-ri la mamau rú nam babá

Quando o santo aos pulos aproximava-se de alguma mulher, ela recuava bradando com desespero:

Afapão!

—Vão aparecer as almas — avisou Antônio. A cantiga diz:

Procuramos a alma de Fulano e de Sicrano e não a encontramos dormindo. Cansamos sem saber o mistério que a envolvia. A alma está aqui e entrou pela porta do quintal.

— Mas quem é este dominó?

— É Baba-Egum. As almas têm vários cargos. O que traz uma gamela chama-se Ala-téorum, o 2º, Opocó-echi, o 3º, Eguninhansan, e no meio de sete espíritos aparece o invocado.

Entretanto o dominó Baba-Egum batia furiosamente no chão com a sua vara de marmelo, e no alarido aumentado apareceu aos pulos outro dominó, o Alabá, que por sua vez também se pôs a bater. Era o ritual da entrega das almas. Por fim apareceu Ousaim, enfiado numa fantasia de bebê, de xadrez variado, com duas máscaras: uma nas costas, outra tapando o rosto.

— Quem é esse?

— O Bonifácio da Piedade, um malandro de cavaignac, que faz sempre de Eruosaim.

Eruosaim também dançava. Entre as cantigas, os annichans ergueram de novo as varas, a porta abriu-se, dois negros ficaram um de cada lado, o atafim, ou confidente, e o anuxam, secreta. De dentro saíram mais três dominós cheios de figas e espelhinhos, com os pés embrulhados nos trapos. As negras aterrorizadas uivavam, com o amarelo dos olhos virados, e os espíritos, naquela algazarra, pareciam cambalear. Havia gente porém que os reconhecia.

— Eles fingem os gestos dos mortos — segredou-me Antônio.

Palmas ressoavam estridentes saudando a chegada do invisível, as varas de marmelo lanhavam o ar e as almas, e naquele círculo silvante, ao som dos xeguedés e dos atabaques, batiam surdamente no chão aos pulos da dança demoníaca.

Um dos espíritos, porém, sentiu-se numa espécie de trono de mágica. Como por encanto a dança cessou, e naquela pávida atmosfera, em que o medo gemia, as mulheres de borco, os homens contorcionados, o negro fantasiado guinchou do alto.

— Guilhermina ocê percisa gostá de Antônio… José tem que fazê ebô para espírito mau. Chica, um home há de vi aí, ocê vai com ele…

— Veja V. S. a chantage — murmurou Antônio. Os negros recebem dinheiro antes dos homens e obrigam as criaturas pelo terror a tudo quanto quiserem. Por isso quem descobre o egum morre.

A Chica, uma mulatinha, coitada!, tremia convulsivamente, mas já outras, nuas, em camisa, sacudindo os membros lassos, ganiam de longe, batendo as varas num terror exaustivo.

— E eu? e eu?

— E eu? e eu?

— Ocê tá dereita, sua vida vai pra frente.

— E eu? e eu? – gargolejaram outras bocas em estertores.

—Ocê está pra trás, percisa ebô.

Aproximei-me de um dos espíritos; cheirava a espírito de vinho; estava literalmente bêbedo.

Quando a cerimônia atingia o desvario e já os espíritos tinham pastosidade na voz, caiu na sala, como um bedengó, Iansã, um negro fingindo de santo materializado, e, em meio do pavor geral, ao som das cantigas, esticou a mão sinistra, foi pedindo a cada criatura 16 obis, 16 orobôs, 16 galos, 16 galinhas, 16 pimentas-da-costa, 16 mil réis, um cabrito, um carneiro. Ao chegar às meretrizes brancas, Iansã ferozmente exigia peças de chita, fazendas e objetos caros. A turba gritava toda: Iansã! Iansã!, gente nova entrava na sala, e de repente, como todos se voltassem a um grito da porta, os espíritos desapareceram… Tinham fugido tranquilamente pelo corredor.

— Está acabado — fez Antônio. Os espíritos vão se despir, e voltam daí a pouco para ver se o pessoal acreditou mesmo…

A cena mudara, entretanto. Dissipado o sudário apavorado, todas aquelas carnes hiperestizadas erguiam-se ainda vibrantes para a bacanal.

O álcool e a queda na realidade estabeleciam o desejo. Negros arrastavam-se para o quintal, para os cantos, longos sorrisos lúbricos abriam em bocejos as bocas espumantes, risinhos rebentavam, e negros fortes, estendidos no chão, rolavam as cabeças numa sede de gozo.

Há entre as negras uma propensão sinistra para o tribadismo.

Em pouco, naquela casinhola suja e mal cheirosa, eu via como uma caricatura horrenda as cenas de deboche dos romances históricos em moda. Mais dois negros entraram.

— Então egum esteve bom?

— E eu que não cheguei em tempo…

— Veja — mostrou Antônio, — lá está o Bonifácio Eruosaim, vendo se causou efeito fantasiado de bebê. Venha até o quarto do banquete.

Fomos. Antônio empurrou uma porta, e logo nos achamos numa sala com garrafas pelo chão, pratos servidos, copos entornados, rolhas, os destroços de uma fome voraz. Num canto a Chica dizia baixinho para um lindo rapaz de calças bombachas:

— É você que o espírito disse?…

Quando reaparecemos, o babaloxá murmurava:

— A festa está acabada, companheiros… É não deixar de trazer o que Iansã pediu.

Saímos então. Vinha pelo céu raiando a manhã. Palidamente, na calota cor de pérola, as estrelas tremiam e desmaiavam.

Antônio cambaleava. Chamei um carro que passava, meti-o dentro.

Em torno tudo dizia o mistério e a incompreensão humana, o éter puro, os vagalhões do mar, as árvores calmas. Tinha a cabeça oca, e, apesar dos assassinatos, dos roubos, da loucura, das evocações sinistras, vinha da casa das almas julgando babalaôs, babaloxás, mães de santo e feiticeiros os arquitetos de uma religião completa. Que fazem esses negros mais do que fizeram todas as religiões conhecidas?

O culto precisa de mentiras e de dinheiro. Todos os cultos mentem e absorvem dinheiro. Os que nos desvendaram os segredos e a maquinação morreram. Os africanos também matam.

E eu, perdoando o crime desse sacerdócio mina, que se impõe e vive regaladamente, tive vontade de ir entregar Antônio negro e a dormir à casa de Ojô, para que nunca mais desvendasse a ninguém o sinistro segredo da casa das almas.

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