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A igreja positivista

in Ed_5_out/dez.2017 por

O amor por principio
E a ordem por base.
O progresso por fim. 

Era domingo, à porta do templo da Humanidade, na Rua Benjamin Constant.

Com o céu luminosamente azul e o sol tépido, havia muita concorrência nessa rua, de ordinário deserta: senhoras, cavalheiros de sobrecasaca, militares, crianças. Uns subiam logo as escadas do templo, cuja fachada recorda um templo grego; outros, mais íntimos, seguiam para o fundo, pelo lado direito. Teixeira Mendes fazia a sua prédica dominical.

Tínhamos ido a conversar com um velho positivista. A princípio ele anunciara um profundo desprezo pela frivolidade jornalística e a imprensa. Mas depois, como eu risse sem rancor, permitiu-se levar-me até a igreja e foi tão bondoso que ali estávamos, tagarelando de coisas superiores, enquanto ao templo continuava a afluir a onda de fardas, de senhoras e de cavalheiros solenes.

— Não é possível negar a influência positivista na nossa política, sobre os brasileiros cultos – ia eu dizendo –, mas o público…

— Os jornais…

—…o grande público não compreende e irrita-se. O meu amigo pode falar de Spencer, de Kant, de outros filósofos. Passa por erudito e é respeitado. Basta, porém, falar de Comte para que o tomem por um esquisitão e perguntem injuriosamente se essa é a religião de Clotilde de Vaux.

— É natural. É a gentinha que não conhece o culto, adulterado por espíritos anárquicos. Mas você vê que os honestos já começam a compreender a doce religião que submeteu a inteligência ao sentimento.

—Tem-lhes custado.

— O positivismo tem quarenta anos de propaganda no Brasil.

Em 1864, o Dr. Barreto de Aragão publicava urna aritmética dando a hierarquia científica de Comte, e o Dr. Brandão escrevia a Escravidão no Brasil. Foram esses os primeiros livros positivistas, hoje quase desconhecidos. Depois é que o positivismo começou a ser falado entre matemáticos e que os professores da Central e da Escola Militar deram em citar a Astronomia e o primeiro volume da Filosofia.

— Era o tempo em que se considerava a Política um livro ímpio…

— Ainda não se fizera sentir a necessidade de dispensar os serviços provisórios de Deus. O caráter religioso do positivismo não era conhecido. Isso não impediu que Benjamin Constant, fazendo concurso na Escola Militar, declarasse ser positivista ortodoxo e republicano, e que o próprio Benjamin, com os doutores Oliveira Guimarães e Abreu Lima, constituísse o núcleo dos ortodoxos em 1872.

— A influência foi nula… — interrompi eu, olhando uma senhora loura que entrava com o catecismo encadernado em veludo verde.

— Nada se perde. Oliveira Guimarães deixou um discípulo, Oscar de Araújo; Benjamin levou às escolas a palavra religiosa do mestre, regenerou o ensino da matemática e foi o primeiro brasileiro que teve no seu quarto o retrato de Clotilde de Vaux. Os trabalhos adotados na Escola Militar são quase todos de discípulos seus. No meio inteligente desses últimos surgiram Raimundo e Miguel Lemos; era um momento de agitação. Pereira Barreto publicava o 1º volume da obra As três filosofias, e tanto Miguel como Teixeira Mendes eram litreístas, considerando a parte religiosa de Comte como obra de louco. Foi com eles que Oliveira Guimarães fez aliança para fundar a biblioteca positivista e abrir cursos científicos.

— Era a filosofia da Academia…

— Sem jardins. O começo do positivismo no Brasil é absolutamente acadêmico. Em 1876, a Escola de Medicina manifestou-se com a tese Da nutrição, de Ribeiro de Mendonça, e a primeira sociedade positivista foi feita de professores ortodoxos e de estudantes litreístas.

— Seria curioso saber como estes mudaram.

— As pequenas causas têm às vezes grandes efeitos. Uma censura ao diretor da escola motivou serem suspensos, por dois anos, Teixeira Mendes e Miguel Lemos, que foram para a Europa; e, enquanto só Benjamin propagava aqui, os dois em Paris litréizavam. Mendes veio o mesmo, achando o Comte da Política maluco.

Miguel ficou, e lá, sponte sua, abandonou Littré e relacionou-se com Laffite.

— E converteu-se?

— A 4 de julho de 1879.

Solenemente, o meu amigo positivista apanhava sol. Levei-o com carinho para o jardim, onde devia florir o bosque sagrado com as sepulturas dos homens dignos. Não havia bosques, nem sepulturas.

Apenas algumas árvores. O positivista acendeu o cigarro, depois de o fazer com um forte fumo Rio Novo. Eu perguntei pasmado:

— Toma café?

Ele riu.

— Como toda a gente! Essa história de não tomar café e não fumar é apenas uma léria. Então você pensa que Augusto Comte imaginasse, de mau, fazer o mundo deixar o café e o fumo, só para arruinar o Brasil? O fato é outro. O grande filósofo não fumava nem bebia excitantes porque lhe faziam mal; Miguel Lemos, doente como é, não se atira a esses excessos; Teixeira Mendes, um homem que reflete dezesseis horas a fio, não se pode dar aos devaneios da fumaça… Não há proibições formais para o horrendo vício; há apenas medo…

Puxei com vigor uma baforada.

— A propaganda desapareceu com a estada de Miguel Lemos em Paris?

— Não. A sociedade passou a chamar-se Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, sendo aclamado presidente o Dr. Ribeiro de Mendonça, que se filiou a Laffite.

— Começou a era do lafitismo…

— E com excesso. Concorríamos até pecuniariamente para o subsídio sacerdotal da igreja em Paris. Lemos influiu de tal modo sobre Teixeira Mendes que pouco tempo depois este também se convertia. Foi ligada a Laffite que a nossa igreja iniciou as comemorações de caráter religioso com a festa de Camões em 1886; que se comemorou o 22º passamento de Comte e a festa da Humanidade; e é dessa época que data a primeira procissão cívica no Rio de Janeiro, com andores e o busto de Camões esculpido por Almeida Reis.

“Quando Miguel voltou, aspirante ao Apostolado, as reuniões tornaram-se regulares aos domingos, na Rua do Carmo, nº 14, e Ferreira de Araújo abriu uma seção na Gazeta com o título Centro Positivista, cujo primeiro artigo dava a teoria científica do calendário.

Em 1881, já presidente Miguel Lemos, o Centro passou para a Rua Nova do Ouvidor, as exposições da religião tornaram-se regulares, e Raimundo fez no Liceu um curso do catecismo, interrompido pelas suas célebres conferências de antigo litreísta contra o sofisma de Littré.

— Era a prosperidade.

— Nesse ano, em que se comemorou a Tomada da Bastilha, Lemos foi a São Paulo, fez nove conferências, fundou uma filial com Ferreira Souto, Carvalho de Mendonça, Oliveira Marcondes, Godofredo Martins e Silva Jardim, e as intervenções do Centro na nossa vida política acentuaram-se contra a imoralidade da colonização chinesa, traçando o programa do candidato positivista, protestando contra as loterias, exigindo o registro civil, a abolição, opondo-se às universidades…

— Já nesse tempo?

— Os artigos foram publicados na Gazeta de Notícias e fizeram que o imperador se opusesse à ideia, aconselhando ao ministro que reformasse o ensino por outro qualquer meio que não fosse as universidades.

O meu velho amigo andou alguns passos pelo futuro bosque sagrado. Acompanhei-o.

Ouvia-se lá dentro o som múltiplo de uma orquestra. Raros retardatários entravam.

— Nesse ano também – continuou com calma –, uma circular instituiu o subsídio sacerdotal, o que deu lugar à retirada de Benjamin Constant, e foram conferidos os primeiros sacramentos aos filhos de Miguel Lemos, Teixeira Mendes e do Dr. Coelho Barreto.

— Hoje esses sacramentos são comuns?

— Como os do matrimônio, em grande número.

— A ruptura com Laffite deu-se logo depois?

— Em 1883. Lemos ficou o único responsável do positivismo no Brasil, continuando a ingerir-se na vida pública da sua pátria.

— Mas este templo como foi feito?

— O Apostolado deixou a sede da Rua Nova do Ouvidor para a Rua do Lavradio. A mudança determinou o lançamento de um empréstimo em 1891 para a construção do templo, no que muito concorreram Pereira Reis, Otero, Rufino de Almeida, Décio Vilares.

A inauguração foi em 1894, e a igreja custou 250 contos.

— É mais uma prova da importância do Centro no regime republicano.

— A nossa intervenção no início da República foi de primeira ordem. Basta citar a Bandeira Nacional, a separação da Igreja do Estado, a liberdade dos professores, a reforma do código no caso da tutela de filhos menores.

— O Centro também tem uma casa em Paris?

O semblante do positivista anuviou-se.

— Sim, a casa em que morreu Clotilde. Foi comprada por 70 mil francos. É triste. Em Paris não estavam preparados para compreender Teixeira Mendes. Era tarde para a campanha… Mas venha ver a nossa tipografia.

Caminhamos com intimidade pela avenida estreita. De vez em quando, ouvia-se o som de uma voz acre. Era a prédica.

A tipografia fica embaixo, correspondendo a toda a extensão da nave em cima. É completa. Pergunto respeitoso o número de publicações dessa oficina.

— As obras de maior valor são o Ano sem par, a Biografia de Benjamin Constant, a Visita aos lugares santos do positivismo, a Química positiva, as Últimas concepções de A. Comte (onde se acha a teoria dos números sagrados), todas obras de Raimundo Mendes. A publicação de folhetos é talvez superior a 600.

— Mas os subscritores são muitos?

— São suficientes. A igreja do Brasil tem recebido também auxílios de Londres.

O pavimento embaixo não é só ocupado pela tipografia. Há também o gabinete luxuoso de Miguel Lemos e a sala Daniel Encontre, onde Teixeira Mendes expõe aos jovens discípulos da humanidade, e a quem quiser ouvi-lo, as sete ciências. Ouvem-no lentes de academias e professores notáveis.

— É grande o número de positivistas?

— No Brasil os ortodoxos devem ser uns 700. Os simpáticos

não se podem mais contar. As gerações que saem da nossa Escola Militar são quase que compostas de simpáticos.

— E a influência moral aumenta?

O positivista confessou com tristeza.

— Vai-se tornando fraca. Não se admire. Será por fraqueza dos apóstolos? Será porque o público se afasta da realidade, corrompido moralmente? O fato é patente. Ainda há pouco o privilégio funerário foi uma campanha perdida… Mas entremos.

Com o chapéu na mão, nós entramos. Havia luxo e conforto.

De um lado a secretária, onde se vendem as obras editadas pela Igreja, de outro, a sala onde está a escada para o coro, com orquestra e uma rica biblioteca de carvalho lavrada. Degraus atapetados dão acesso à nave.

O templo da Humanidade é lindo. Ao alto, junto ao teto correm janelas que arejam o ambiente. Todo pintado de verde-mar, está-se dentro como num suave banho de esperança. Sentam-se os homens na nave, que tem catorze capelas; colunas de pau negro sustentando em portais abertos bustos esculturados por Décio Vilares. Os bustos representam os meses do calendário: Moisés ou Teocracia inicial; Homero; Aristóteles; Arquimedes ou a poesia, filosofia e a ciência antiga; César ou a civilização militar; São Paulo, ou o catolicismo; Carlos Magno ou a civilização feudal:

Dante, Gutemberg, Shakespeare, Descartes, Frederico Bichat, ou a epopeia, a indústria, o drama, a filosofia, a política, a ciência moderna; e Heloisa, a santa entre as santas, que fica na última capela, voltando o seu semblante magoado para a porta.

Na capela-mor, rica de tapetes e de madeiras esculpidas, há uma cátedra, onde se senta Teixeira Mendes, com as vestes sacerdotais negras debruadas de verde. Por trás fica um busto de bronze de A. Comte, e, dominando toda a sala, o quadro de carvalho lavrado com letras de ouro, de onde surge a figura delicada de Clotilde, a humanidade simbolizada por Décio numa das suas miríficas atmosferas sonhadoras.

A voz de Raimundo corre com a continuidade de uma queda de águas; na nave cheia cintilam galões e lunetas graves; na capela-mor, senhoras ouvem com atenção essa palavra, que não deixa de ser demolidora.

— Que é o positivismo? – sussurro eu, sentando-me.

— É uma religião que respeita as religiões passadas e substitui a revelação pela demonstração. Nasceu da ruptura do catolicismo e da evolução científica do século XVII para cá. De Maistre dizia que o catolicismo ia passar por muitas transformações para ligar a ciência à religião. Comte descobriu a lei dos três estados, a chave da sociologia, e, quando era o grande filósofo, Clotilde apareceu e ensinou que a inteligência é apenas o ministro do coração.

Agir por afeição,
Pensar para agir.

 Comte proclamou que o homem e a mulher se completam sob o tríplice aspecto: sentimento, inteligência e atividade. A religião divide-se em Culto, Dogma e Regime, o que vem a ser bem amar, bem conhecer e bem servir à humanidade, o Grande Ser, o conjunto das gerações passadas e futuras pela geração presente.

A existência do Grande Ser está ligada à terra, o Grande Fetiche, e ao espaço, o Grande Meio…

— Mas quantas senhoras!

— As mulheres devem amar o positivismo. Comte dignificou-as.

A mulher é a força moderadora, o sentimento puro do amor que faz a sociabilidade, é a sacerdotisa espontânea da Humanidade que modifica pela afeição o orgulho vão e o reino da força: a mulher é a humildade, o fogo do culto no lar, é Beatriz, é Clotilde, é Heloísa, mãe, esposa e filha, a Veneração, a Doçura e o Bem. As mulheres deviam ser todas positivistas.

Enquanto o meu amigo assim falava, Raimundo Mendes, do alto da cátedra, relampejava. Na catadupa das palavras faltavam rr, havia repetições do pensamento, de frases, mas na explicação cultual, de repente, iconoclastamente, o azorrague partia contra os fatos, contra a anarquia atual: e um esto de amor, de amor indizível, de amor pela Vida, subia, como um incensório, à alma das mulheres.

Fiquei enlevado a ouvi-lo. Esse mesmo homem, puro como um cristal, que tem o saber nas mãos, eu já o vira uma vez, de manhã, carregando com dignidade um embrulho de carvão…

As mulheres sorriam; em toda a translúcida claridade parecia vibrar a alma do grande filósofo terno e bom, e do alto, Clotilde, a Humanidade, abria como um lírio a aça suave do seu lábio.

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Crédito da imagem: CC0 Public Domain

Capítulo do livro: “Religiões no Rio”, seção “No mundo dos feitiços”. Obra de Domínio Público.

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