Manoel

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Manoel era camponês. Um homem alto e forte. No rosto os sulcos que o tempo e o sol cravaram em sua testa lhe conferiam um ar rígido que só se desarmava quando seus olhos azuis encaravam sua filha caçula Amara brincando na soleira da porta.
Nascido em 1921, Sairé, Pernambuco, Manoel conhecia as terras da Zona da Mata pernambucana, de Bezerro, Camocim de São Félix, Barra de Guabiraba e Palmares, onde o quilombo que deu o nome ao município se estabeleceu em 1580 e, liderado por Zumbi, resistiu a 18 expedições contra os quilombolas.

Manoel se estabeleceu em Burarema. Lavrava e cuidava de pequenas criações de galinha, porco, pato. Mas a terra sempre pertencia a outros. De tudo que produzia e criava, pagava a meia para o dono da gleba, ou seja, a metade da produção ficava com os fazendeiros e com a outra metade Manoel tirava o sustento dos cinco filhos.
Em 1960, depois de terem vivido mais um derrota das águas, saem em busca de um lugar para recomeçar. Uma cheia do rio havia levado toda a lavoura, invadido a casa e matado criações afogadas. A água do rio era tão barrenta que ficaram até mesmo sem água potável para beber. Manoel e a família foram parar no Engenho Alexandria, em Barra de Guabiraba. A oportunidade de trabalho e moradia veio por meio da ajuda de alguns amigos camponeses que trabalhavam para a família Pontes, dona do engenho.
O Engenho Alexandria era muito conhecido, considerado o berço de uma das mais tradicionais festas pernambucanas da época: o Papangu, derivado do antigo carnaval trazido pelos portugueses, já era comemorado antes mesmo da Proclamação da República. Tinha máscaras, músicas e muito angu com carne. As crianças adoravam o festejo.
O lugar era parecido com uma vila, repleta de casas, plantações, pequenas criações e famílias campesinas. Dos primeiros animais até a semente para se iniciar a nova vida, os Pontes forneciam. Não seria diferente das outras fazendas, ele pagaria essa ajuda inicial com a renda — assim chamados os dois dias de trabalho por semana que Manoel dedicava exclusivamente ao engenho.
Tudo prosperava. O acordo parecia ter sido bom:

— Quem sabe não é agora que junto um dinheiro e compro a minha terra — dizia Manoel.

Desde 1954 um grupo de camponeses da região fundou uma associação, responsável por angariar fundos para comprar caixões, construir escolas e garantir assistência médica e jurídica para os camponeses, no Engenho Galileia em Vitória de Santo Antão. Com o surgimento da associação de camponeses, o dono do engenho passou a acreditar que ela era movida por ideais políticos, de forma que resolveu por em prática rapidamente os planos que tinha de vender as terras. Além de ameaçar aumentar o foro — taxa paga pelos camponeses pelo uso da terra — falava em expulsar as 140 famílias que viviam ali. Zezé da Galileia, Manuel Severino, Amaro do Capim e o irmão, José Ayres dos Prazeres foram buscar ajuda na cidade e conheceram o deputado Francisco Julião. Juntos legalizam a associação que passou a se chamar Ligas Camponesas. Os objetivos mudaram, passaram a exigir das autoridades programas de educação para o homem do campo, uma vez que analfabetos eram proibidos de votar, realidade que só mudou em 1985 com a redemocratização.
Mas o que fortaleceria as Ligas Camponesas e espalharia a sua fama pelo Brasil foi algo mais audacioso: conseguiram a desapropriação das terras do Engenho Galileia e assentaram as 140 famílias em 1959. Porém, um racha interno por motivos de liderança fez com que José Ayres dos Prazeres saísse e  fosse organizar as grandes Ligas de Guaretama e Barra de Guabiraba.
Em 1963, o presidente da República João Goulart, mais conhecido como Jango, havia retomado as negociações com Miguel Arraes, o governador de Pernambuco. Através da Superintendência de Política Agrária (SUPRA) seriam injetados 100 milhões de cruzeiros, o equivalente a cinco milhões de reais, no câmbio atual, para o provimento de assistência técnica e social e o assentamento de 800 famílias de camponeses em Barra de Guabiraba, Vitória de Santo Antão, Cabrobó e Garanhuns, além da construção de barragens no Rio Traíra.
No mesmo ano, Manoel conhece as ideias de Zé dos Prazeres por meio de outros camponeses que trabalhavam no Engenho Alexandria. Zé falava em reforma agrária, dizia que ela aconteceria na lei ou na marra e que cada camponês deveria ter direito a um pedaço de chão.
Será que assim Manoel conseguiria sua terra?

***

Era fim de tarde. Maria Barbosa, esposa de Manoel, trabalhava na casa-grande quando ouviu pelo rádio dos Pontes que Jango não era mais o presidente e que o exército havia assumido o comando da nação. A situação para quem fosse de alguma associação rural era crítica. A ordem era para invadir as fazendas e prender os associados. Maria grita por Josa, o filho mais velho:

— Josa! Josa! Corre até seu pai e diga que ele não pode vir pra casa essa noite. Aproveita e procure o compadre Deó, ele sabe o que fazer.

Manoel ainda estava na mata cortando lenha para o engenho. Não estava só, com ele havia mais outros machadeiros. Josa, seu filho, chega ofegante.

— Pai, você e os outros não podem sair da mata. Já avisei seu Deó e ele vem lhe buscar.

Enquanto Manoel aguardava, Josa corria de volta para casa.

***

Amara, a filha de 12 anos de Manoel, acordou assustada com uma gritaria no outro cômodo da casa. Não havia como precisar que horas eram, mas o sol já tinha se posto e as estrelas brilhavam alto no céu.  Ela  se levantou e foi ver o que estava acontecendo.

— Onde ele está? Onde ele está? — repetiam os soldados.
O dono do engenho, acompanhado por homens vestidos em uniformes verde e empunhando armas com baionetas procuravam por Manoel.

— Vão matar meu pai? — sussurrou Amara para a mãe. Começou a tremer sem parar. Não poderia imaginar que essa tremura seria sua amiga fiel pelas décadas seguintes.

Os soldados cutucaram Josa, que estava deitado na rede, com a baioneta da arma. Acharam que fosse Manoel. Maria, diante daquela cena achou que matariam seu primogênito e entrou em pânico.

— Não, vocês vasculhem a casa, só quero o Manoel — disse o dono do engenho.

Mesmo pressionada pelos soldados e pelo Senhor Pontes, Maria não diz onde Manoel está e é expulsa do engenho com os filhos Josa, Neta, Amara, Maria e Roberto.

— Vocês podem ficar mais alguns dias até liquidar os negócios que tem comigo, depois vão embora! — decreta o patrão.

Na casa ao lado, a estratégia dos militares foi diferente.

Severino, amigo e vizinho de Manoel, também foi procurado naquela noite. Ele havia se escondido nas proximidades. Sua esposa estava só com o filho, nascido há sete dias. Os soldados gritaram:

— Apareça Severino!

Ele ouviu, mas o medo não o deixou sair. Foi então que a brutalidade deu lugar aos chamados. Pegaram a criança recém-nascida pela perna, viraram-na de cabeça para baixo e apontaram a arma na direção da sua cabeça. Tanto o bebê quanto a mãe, que foi amarrada, começaram a gritar. De onde estava Severino conseguia ver a baioneta da arma pressionada contra a garganta do filho, mas conseguiu se conter diante do terror provocado pelos soldados que desistiram e foram buscar outros camponeses do engenho.
Passado alguns dias, chega a notícia de que Manoel está bem e na casa de José, seu cunhado, que morava a dez léguas do Engenho Alexandria, aproximadamente 48 quilômetros. Maria arruma as poucas coisas que sobraram e junto com os filhos, parte ao encontro dele.

— Como você conseguiu escapar, pai? — perguntou Amara.
— Depois que o Josa nos avisou e foi embora, compadre Deó apareceu lá e fez um encantamento, recomendou que não saíssemos da mata até o dia clarear. Os soldados passavam do nosso lado e não nos enxergavam.

Amara insistiu para saber toda a história da fuga. Não entendia como o pai podia ter chegado à casa do tio em tão pouco tempo. Manoel havia andando 48 quilômetros e passado pelo centro de Barra de Guabiraba e Camocim de São Félix até chegar à casa do cunhado. As duas cidades estavam tomadas pelos militares.

— Fomos para a casa do compadre, como ele tinha dito pra fazer. Eu disse que a casa do José era lugar seguro para se ficar, mas que estava com medo de ser preso no caminho. Então ele fez umas rezas e falou que eu seguisse pela estrada durante o dia sem olhar para trás. Já estava escurecendo quando cheguei. Tamanho foi o susto do José que só me enxergou quando eu disse boa tarde.
Compadre Deó era um homem branco, velho de estatura mediana e muito reservado. Diziam que não existia feiticeiro mais poderoso que ele pela Zona da Mata pernambucana. Era tão sabido que podia prever quando uma criança ia nascer e o destino dela por toda a vida. Fazia rezas, mandingas, partos e remédios de ervas.
Religiosidade, folclore ou fé, a verdade é que Manoel conseguiu escapar. Destino diferente da maioria dos trabalhadores do Engenho Alexandria e de tantos outros camponeses assassinados pelo Estado durante a repressão.
Dois anos se passaram desde a fuga mítica de Manoel e a situação não melhorava. Manoel continuava escondido na casa de José. Dos pequenos serviços que fazia para algum vizinho, ganhava pouco dinheiro. Mal dava para pagar as despesas cotidianas. Josa tinha ido para São Paulo e todos esperavam ansiosos por notícias. Dona Maria, sua mãe, havia escrito pedindo que mandasse dinheiro. Estava decidido. Todos iriam para São Paulo.
Josa enviou uma carta dizendo para a mãe que ajeitasse tudo para dali a um ano. Ele mandaria o dinheiro para a viagem de toda a família. Uma mistura de alegria e vitória tomou conta de todos, mas Manoel não se animou. Mesmo assim, em 1967, sua família estava de partida para São Paulo. Amara, aos prantos não se conformava.

— Por que você não vai conosco, pai?
— Eu não gosto da cidade, meu lugar é aqui, eu nasci e vivi sempre em sítio.

Amara insistiu com a mãe. Queria ficar com ele, não poderia ir embora e deixá-lo para trás. Mas a insistência foi inútil e ainda que com a ausência de Manoel, a família recomeçou a sua vida na capital paulista.

***

Manoel Cecílio da Silva se deparou com uma vida cheia de incertezas. Vagou de favor em favor pelas pequenas cidades nordestinas até adoecer no Maranhão. Dizem que de tristeza. Em 1973, uma carta dava notícias da doença de Manoel a Amara, casada desde 1970. Apavorada, combinou com o marido uma forma de trazer o pai para São Paulo. Conseguiu. Mas Manoel ficou somente 11 meses e retornou para Santo Antônio dos Lopes, Maranhão. Dessa vez, Josa foi atrás do pai.
Em 1977, pai e filho se mudam para a Lagoa do Coco, também no Maranhão, onde trabalham juntos no roçado de outra família. Ao lado do filho Josa, Manoel recobrou o ânimo e saiu em busca do seu sonho: um pedacinho de terra.
Manoel e Josa partiram do Maranhão rumo ao Pará no final da década de 70, ouvindo os ecos do Plano de Integração Nacional do governo Médici que incentivava a ocupação da região amazônica alegando ser uma terra sem homens. Manoel e o filho conseguiram. Não tinham o título de posse da terra, mesmo assim, deram início ao plantio e a criação.
Os conflitos de terra se acirraram na região, não só por conta do fluxo migratório, mas também pelo aumento da concentração de projetos agropecuários, ambos incentivados pelo governo federal. Nos Estados do Pará, Maranhão e no norte de Goiás aconteceram a maior parte dos conflitos entre 1974 e 1983. Só no Pará, entre 1980 e 1982, foram mortos 69 camponeses, o equivalente ao número de assassinatos no campo durante os 14 primeiros anos da ditadura.
Em 1982, Manoel morreu. Mas, ao contrário de Fernando Francelino, morto na mesma região um ano antes por militares que lhe deram quatro tiros nas costas, Manoel definhou em uma rede consumido pela febre consequente da malária.
Até hoje não há registros do que aconteceu no Engenho Alexandria naquela noite de 1º de abril de 1964. Acuada pelo exército, a família de Manoel precisou abandonar a terra em que trabalhava para conseguir se manter viva. Mesmo sendo impedido de trabalhar por quase dez anos por conta da perseguição que sofreu, Manoel não consta nas listas recém-publicadas que só elencam casos de camponeses torturados, mortos e desaparecidos. Mas ele, sem dúvida, é mais um tipo de vítima da luta camponesa, assim como sua filha.
Aos 62 anos, Amara vive no município de Miracatu, interior de São Paulo. Além das saudades de Manoel, ainda enfrenta os tremores constantes, sequelas daquele dia em que soldados armados procuravam por seu pai.

— Ele sonhava ter um pedacinho de terra. A gente vivia aqui e acolá nas terras dos outros e ele sonhava… Era um sonho. Era a esperança de cada um daqueles coitados. E nessa esperança morreu muito pai de família.

Manoel conseguiu realizar o sonho de ter um pedaço de terra. Hoje, Josa vive o sonho do pai.

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Crédito da imagem: Jornal Terra Livre

Capítulo do livroCorações Camponeses: Crimes do Estado brasileiro“.

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