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Você é dura, Lia!

in Ed_1_out/dez.2016 por and

Maria Dirce da Penha, de oitenta e três anos, tira os pés largos de dentro da Moleca azul-marinho. Os dedões, maltratados pelo tempo e sol, esticam-se livres das amarras dos sapatinhos. Faz pouco mais de meia hora que ela está sentada em um dos bancos de madeira – cobertos por um estofado verde-musgo –  espalhados pelo galpão de exposições do Sesc Pompeia, em São Paulo.
Embora não espere ninguém, de tempos em tempos, encara o minúsculo relógio de pulso. A nora, Beatriz, a deixou lá para se distrair um bocadinho. “Distrair”, bufa dona Maria. Depois abre um sorriso, denunciando um fiapo da dentadura. “Só se for com os pombos cagando pra toda banda”, acrescenta, gargalhando de leve. A risada é logo interrompida por um pigarro.
Dona Maria – que rapidamente diz preferir ser chamada apenas de dona Lia, seu apelido para os mais chegados – tem razão.  Exceto por dois pombos e por um punhado de velhinhos que ocupam os demais bancos, não há quase nada para se distrair.
É quinta-feira à tarde e o Sesc não está muito movimentado. Dona Lia diz não saber como é o espaço aos finais de semana. Muito raramente, quando vem visitar o filho Marcelo, que mora para aqueles lados, passa algumas tardes ali. “Ultimamente, tenho vindo mais pra casa do meu menino. Ele e minha nora estão me levando pra fazer um tratamento”, conta ela.
O tratamento é para o maldito do reumatismo que resolveu lhe atacar, assim, de uma hora para outra. “Coisa de velha, fia”, diz, achando graça em suas palavras. Surpreende-se quando escuta uma pergunta sobre seus anos de meninice. “Hmmm, a memória anda fraca, mas tem coisa que a gente nunca esquece, sabia?”, fala, arregalando os olhinhos estrábicos e inocentes.
Uma delas certamente tem haver com seu pai, Francisco. “A pior coisa que pode acontecer pra gente, fia, é perdê uma pessoa sem sabê que perdeu. Eu nunca vou sabê se meu pai morreu”, explica vagamente. Dele, dona Lia só possui um retrato que a mãe, Maria (só que do Carmo), fazia questão de deixar pendurado na parede de casa.
Pela descrição, não é difícil imaginar a tal fotografia: Francisco postado, vestido como um típico camponês, em mangas de camisa, com um dos pés encimado numa enxada fincada no chão de terra, sorrindo satisfeito para o fotógrafo. Francisco nasceu em algum lugar da Espanha. Veio para Brasil e foi parar, não se sabe como, em Mato Verde, Minas Gerais, onde se casou com Maria do Carmo, mãe de dona Lia. Era muito jovem quando sumiu, no meio da noite, deixando para trás mulher e filha. Partiu sem dar adeus.
Dona Lia se recorda que ele deixara algum dinheiro, que logo se acabou. Um pouco ficou com o padeiro, outro pouco com o leiteiro e a maior parte ficou com o dono do armazém, para pagar a conta atrasada.
Só meses depois, ela descobriu que o pai havia voltado para a Espanha. “Era o que o povo dizia, mas, vai sabê, né?”, ergue os ombros. Por pouco, nunca fica sabendo de nada. Quando o moço da polícia bateu na porta do seu casebre para finalmente dar um parecer, a mãe a mandou sair, chispar para o quarto. “Coisa de adulto”, explicou-lhe Maria do Carmo. Mas Lia já não era mais tão criança assim. Havia acabado de completar oito anos e achava que podia, sim, escutar coisas de adulto.
Por isso, desobedeceu. Entreabriu a porta do quarto e espiou pela brecha.
– Lá na cidade andam falando que ele foi-se num caminhão lá pras bandas de Santos, dona Maria. – informou o homem.
Maria do Carmo não conteve o choro diante do policial. Lia pouco ou nada compreendeu da cena. Só foi entender o que se passou na sala de sua casa anos mais tarde. Até chegar esse dia, alimentou-se da ideia – e dela foi alimentada – de que o pai logo voltaria da Espanha, aonde havia ido visitar uns parentes.
Fosse a comida faltar, e o estômago de Lia chiar baixinho, a mãe, alisando-lhe os cabelos, dizia que quando o pai voltasse, haveria outra vez fartura na mesa. Fosse a barra do único vestido de passeio rasgar, a mãe o remendava, avisando que a filha não deveria se preocupar, não, pois quando o pai voltasse lhe traria da Espanha muitos vestidos bonitos, da última moda.
Como era mulher de fibra e honrada, Maria do Carmo pegou a enxada do marido, colocou-a nas costas, e foi para a roça em seu lugar.  Dona Lia diz que a mãe lhe contou que no início, seu Siqueira, dono de grande parte das terras dos arredores, objetou que não admitia mulher trabalhando em suas plantações.
– Isso é coisa de macho. – justificou ele, quando a mulher chegou para pedir a vaga deixada pelo marido.
Maria do Carmo insistiu. Só não implorou porque era orgulhosa. De qualquer modo, não precisaria ir tão longe. Seu Siqueira era homem bom, diz dona Lia. Fazia-se de durão – para evitar a desordem dos camponeses que trabalhavam em suas terras –, mas, no fundo, era só um sujeito manso, temeroso dos castigos de Deus. Por isso, acabou aceitando a proposta da mãe de Lia.
E lá ia pela estradinha de pó, dia após dia, Maria do Carmo. Vestia a calça e o blusão que foram do marido – para horror das vizinhas, que ficavam nas janelas – um chapéu de abas largas, para se proteger do sol escaldante, e ia para a plantação de algodão.
“Como dói a cabeça!”, reclamou Maria do Carmo certa vez. “O moço da venda disse pra ela amarrá pano quente na testa que passava”, conta dona Lia.
Não passou. Em vez disso, parecia aumentar gradativamente. Lia reparava curiosa na mãe com aqueles panos amarrados na testa o dia todo. Só a via tirá-los no momento de ir para a roça, mas sabia que lhe era uma tortura as horas em que passava sem eles. “Dê-me os panos, Lia”, pedia assim que despontava na entrada da casa. Os panos pareciam aliviar a dor, porque Maria do Carmo parava de tremer assim que os amarrava na testa.
Numa noite fria, em que Maria do Carmo não voltou para casa depois da roça – e os panos que Lia havia aquecido, esfriaram – os cachorros de uma vizinha latiram de modo tão estranho. Latido que lembrava choro. Lamentação. Lia nunca os tinha ouvido latir daquele jeito e aquilo lhe dava medo.
Medo, mas medo de arrepiar, Lia sentiu horas mais tarde, quando uma carroça grandalhona parou defronte à sua casa. Correu a espiar pela janelinha, pensando que podia ser sua mãe. Viu dois homens saltarem para fora dela. Eles carregavam uma coisa comprida – também tirada da carroça – que de longe pareceu uma trouxa grande de roupa ou algo assim. “Ô, de casa!”, gritou um deles quase esmurrando a porta.
Lia tremeu toda. Será que devia abrir ou não? “Ô, de casa!”, insistiu o homem aos murros.  Por fim, decidiu abrir, puxando a trinca rapidamente.
Os homens eram camponeses; e o que Lia julgou ser uma trouxa era, na verdade, Maria do Carmo embrulhada num pano.
– Sua mãe tá adoentada, viu? – avisou um deles – Se você precisar de argo, manda avisá seu Siqueira. – disse e saiu.
A carroça já ia longe quando uma vizinha que morava na frente saiu para ver o que acontecia. Dona Lia diz que a mulher correu para ela e fez um monte de perguntas. “Eu disse que não sabia de nada.”, conta.
Só quando Maria do Carmo despertou é que contou que havia desmaiado no meio da plantação de algodão e por pouco escapou de ser picada por uma cobra, porque um dos camponeses resgatou-lhe a tempo.
Desde o desmaio, Maria do Carmo não mais conseguiu se erguer da cama. E Lia, orientada pela voz fraca que a mãe se esforçava a murmurar, aprendeu a fazer a sopa, a acender o fogão à lenha, a cuidar das poucas galinhas que criavam no quintal. “Daqui, direto pra cova”, dizia quando algum vizinho vinha lhe ver.
A tal cova não tardou a chegar. Veio num domingo chuvoso. Dona Lia nunca vai se esquecer da imagem da mãe na cama, sorrindo serena. “Quando ela viu que eu tava chorando, me chamou pra perto da cama”, diz.
– Não chora! – ordenou quase brava. Pegou-lhe as mãos e as escondeu nas suas. Lia sentiu a frieza daqueles dedos ossudos transpassar-lhe a espinha.  – Você é dura. Você é que nem eu.
Tão rápidas, sem que a menina percebesse como, as mãos da mãe abandonaram as suas e voaram crispadas para a cabeça. Ainda hoje, a lembrança do corpo frágil de Maria do Carmo se debatendo entre os lençóis é nítida para dona Lia.
Ela respira profundamente antes de contar que uma vizinha a puxou do quarto, afastando-a da cama e do corpo que agonizava. Na saleta, o padre, chamado sabe-se lá por quem, esperava pela hora final da enferma. Quando disseram que chegara o momento, o sacerdote entrou no dormitório, esquecendo-se de fechar a porta.
Cabeças curiosas, muitas delas, amontoavam-se na entrada, nas janelas, nas frestas da parede – múltiplas e sádicas – a fim de assistir à agonia alheia. Contudo, Lia fingia não vê-las. Mantinha os olhos fixos na porta por onde o padre havia entrado.
Por segundos, tão curtos que nem pareceram reais, Lia achou ter visto os olhos da mãe. Olhos injetados de sangue. Vermelhos. Olhos que, cedo demais, resolveram se fechar.

II

Dona Lia mexe-se no banco apequenado do Sesc. Sente as costas incomodar. Reclama que os assentos podiam ser mais confortáveis. A lembrança da mãe parece ter lhe deixado emotiva e tristonha. Seus olhos ficam marejados, meio perdidos no galpão.
Muda de assunto, sem mais nem menos. Diz que no sábado vai voltar para seu quarto e cozinha, nos fundos da casa do filho mais velho, Marcos. “Vai ter festa. Minha neta Camila faz aniversário”, explica. A idade da garota, não sabe ao certo. “Uns 15, 16, por aí”, chuta. Depois diz que ultimamente tem trocado o nome de todo mundo. “Também, né? Tenho mais de onze netos!”, justifica-se.
“Sabia que a primeira vez que me olhei no espelho eu tinha dez anos?”, conta, de repente, apertando os olhinhos.
O dia, dona Lia jamais esquecerá. O espelho era lindo, grande (diziam que havia vindo da Europa no porão de um navio) e ficava na requintada sala de jantar do seu Siqueira. Achou-se feia. Muito feia. Feia de uma feiúra incomum. Os olhos miúdos, uma das maçãs do rosto mais pronunciada que a outra, pálida e magra, muito magra. Talvez fosse só o contraste com a elegância do casarão.
O casarão… Lia nunca imaginou que no mundo pudesse existir tanta coisa bonita assim. Ela lembra-se vagamente de que na sala também havia uma mesa de madeira escura com um número incontável de cadeiras, que se estendia infinitamente.
Numa das paredes da sala abria-se uma porta-balcão que dava acesso a uma varanda espaçosa onde o padre conversava com uma senhora de carnes fartas e um velho um pouco mais magro. De vez em vez, os três paravam de falar e olhavam para a menina franzina, deslocada naquele lugar estranho. Lia espiava-os com o rabo dos olhos, todavia não os encarava.
Soube-lhes os nomes assim que o padre a chamou. O sacerdote, não se lembrando do seu, chamou-a de criatura. “Criatura, venha cá”, gritou para dentro da sala. A criatura obedeceu.
– Qual é o seu nome, criança? – quis saber o velho, que o padre chamou de seu Siqueira. Finalmente ela conhecia pessoalmente o homem que fora o patrão de seus pais.
– Maria, mas pode me chamar de Lia. – respondeu.
A mulher, que chamava-se Adalfrida, rodeou-a para analisá-la de todos os ângulos. Depois, dirigindo-se ao padre quis saber se a menina daria mesmo conta dos trabalhos domésticos.
– Aí eu pensei: Adalfrida. Que nominho esquisito. Isso é nome de gente? – conta dona Lia.
Depois de muita insistência do padre, Adalfrida decidiu que a menina ficaria na fazenda. A preta Sebastiana, como era conhecida a cozinheira, apareceu logo ao toque da sineta que a mulher fez tilintar. Orientada a levar Lia para a cozinha, puxou-a por um dos braçinhos e a guinchou sem falar nada.
Uma vez na cozinha, Sebastiana abriu um saco enorme de batatas e as esparramou sobre a mesa.
– Descasque. – ordenou.
Lia obedeceu.
Daquele dia em diante, só o que fez na vida foi cumprir ordens. Obedecia à preta Sebastiana, obedecia ao seu Siqueira, à dona Adalfrida, e aos outros membros do casarão que aos poucos foi conhecendo.
Havia um senhor muito alto, barbudo, único filho do seu Siqueira. Lia, logo quando o viu, sentiu um medo horroroso dele; medo que diminuiu com o tempo, pois o homem, grandão além da conta, parecia nem dar pela sua existência.
Ele era casado com uma mulher loira, que Sebastiana dizia ser filha de um alemão abastado. Dona Lia diz se lembrar dela pelos cantos da casa se lamentando; ora do calor insuportável, ora do frio demasiado.
Ambos tinham dois filhos: Marcelo e Cecília. “Ele era caladão, sabe?”, conta dona Lia, referindo-se ao neto do seu Siqueira. Nas recordações dela, o rapaz vivia agarrado à crina do cavalo.
Mas, para dona Lia, os piores momentos daquela época eram os dias em que os patrões inventavam de dar banquete para um povo rico que aparecia na fazenda. Esses tais jantares eram um tormento para a Sebastiana e para ela. Dona Adalfrida ficava arisca, além do comum. Ia da cozinha para a sala, da sala para a varanda e da varanda outra vez para a cozinha. “Ponha mais tempero nisso!”, “Asse melhor aquilo!”, ordenava o tempo todo. Sebastiana soltava fogo pelas ventas. “Vade retro”, resmungava quando a patroa se afastava.
Dona Lia diz que sempre ria, achando graça da situação. Por esses tempos, Sebastiana já tinha virado camarada dela e sempre que podia a protegia dos castigos que dona Adalfrida lhe aplicava. Entretanto, às vezes, era difícil evitar-lhe as punições.
Numa semana, os cascudos vinham porque queimara um vestido novo de uma das patroas no ferro de passar; na outra, os murros vinham porque se esquecera de alimentar as galinhas ou porque deixara o porco fugir. O menor castigo, no entanto, fora o mais doloroso. Não porque lhe infligira vergões mais profundos que os outros na pele e tampouco porque não fora merecido – de todos, de acordo com dona Lia, esse talvez fosse o único que carecia de corretivo –, mas porque a dor reinava no trauma mais íntimo dela: o escuro.
Pequenina ainda, Lia tinha pavor de que a mãe apagasse as velas para dormir e que a penumbra abarcasse tudo. Corria para a cama dela e escondia-se entre seus cabelos. Só ali, no aconchego materno, é que não temia a escuridão soberana.
– Mas, o que aconteceu?– pergunto.
Dona Lia então explica que a neta do seu Siqueira vivia atormentando-a. “Ela ria da minha cara porque eu não sabia lê”, conta, fechando as mãos em punhos. E no dia do castigo que a marcou não foi diferente. Lia caminhava a esmo pela estrada quando Cecília tornou a zombar dela, chamando-a de burra e analfabeta. Revidou, dizendo que não era nada daquilo, não. Cecília a provocou. Se soubesse mesmo ler, que provasse, então. Como ela não conseguiu comprovar, a neta do seu Siqueira foi ainda mais cruel: caiu na gargalhada.
Lia estava farta de aguentar tanta humilhação calada. Com o sangue fervendo de raiva, ela olhou ao redor à procura de algo que pudesse fazer a neta do patrão se calar. A poça de lama estava tão perto. Bastava…
– Pus a mão na lama e depois limpei na roupa dela! – confessa.
Já ia longe quando escutou Cecília gritar, chamando pela avó. Esperou para voltar até que a noite ficasse bastante avançada e só voltou porque não tinha outro remédio. Para onde mais poderia ir? Entrou de fininho pela cozinha, procurando Sebastiana. No lugar de Sebastiana, esbarrou em dona Adalfrida, que cochilava numa cadeira.
– O que aconteceu depois? Qual foi o castigo? – não consigo esconder minha curiosidade.
Assim que viu a patroa na cozinha, Lia tentou escapar, mas a velha ligeira lhe agarrou pelos cabelos. Como estava cansada à beça devido à hora avançada para apanhar o chicote na dispensa e fazer os braços e as pernas de Lia sangrarem, arrastou-a para o quartinho de ferramentas. Quando ela percebeu a intenção de dona Adalfrida, implorou para não ser deixada lá sozinha.
– Ainda é pouco, atrevida! – resmungou a velha. Passou o trinco pelo lado de fora e se afastou.
O escuro sugou a visão de Lia. Seu coração martelava no ouvido, Tum! Tum! Tum! Tum! Os joelhos trêmulos cederam mansos até o chão; em seguida as mãos e por último o rosto. Enroscou-se em posição fetal, abraçando as pernas.
Tum! Tum! Tum! Tum! O coração disparava alto no silêncio. A visão, já mais acostumada à penumbra, captou as formas ao redor: a enxada, o martelo. Todos os objetos amontoados no espaço pequeno. Sentiu-se sufocar. As paredes e o teto alongavam-se, diminuíam, e, outra vez, tornavam a se alongar. Apertou os olhinhos, incapaz de reprimir um grito. Tapou a boca para calar os berros, com medo de a patroa voltar e lhe aplicar uma punição ainda pior.
Lembrou-se da mãe, tentando arranjar coragem. Devagar, abriu os olhos e fitou um pequeno buraco no teto por onde se infiltrava a luz do luar. Com os olhos fendidos, pregados naquele ponto de claridade, aguardou o raiar do dia.

III

Seis invernos passados e Lia já era moça. Ainda se achava feia, só que não era mais aquela feiúra incomum de outrora. Encorpara, deixara os cabelos crescer em longas tranças. Sebastiana, que por sua vez envelhecera, ensinou-a a costurar os próprios vestidos, assim não precisaria andar por aí toda rasgada.
A carroça que as levava – ela e Sebastiana – para a missa aos domingos na cidade era apertada. No entanto, Lia pulava em sua carroceria sorridente, cheia de satisfação. Adorava sair da fazenda, mesmo que fosse para ouvir os sermões do padre.
Porque, às vezes, depois da missa, havia alguma festa. “Eu te contei que conheci o Damião numa quermesse?”, quis saber.
A feira paroquial à qual dona Lia se refere foi uma que fizeram, ela acha, em homenagem ao Dia de São João. Ela lembra-se de ter zanzado entre as barraquinhas, curiosa com os quitutes e objetos que vendiam ali, com uma vontade danada de comprar qualquer coisinha. Se pelo menos tivesse dinheiro…
Mas como, se os patrões nunca lhe pagaram um tostão pelos serviços prestados? O pagamento era o teto e a comida; “E já está de bom tamanho”, disse-lhe certa vez a patroa.
Enquanto ziguezagueava, apareceu um moço com uma câmera fotográfica, oferecendo-se para tirar seu retrato. Antes que Lia pudesse explicar a ele que não tinha como pagar pela foto, o bendito foi lá e tirou a fotografia. Quando conseguiu lhe dizer que estava sem um tostão, o moço deu de ombros.
– Não tô cobrando. – disse ele. Depois, esticou a mão e se apresentou como Damião. “Damião de quê?”, quis saber Lia. A resposta dele foi breve: só Damião.
Sem pedir permissão, Damião a acompanhou pela quermesse. Se Lia virasse para a direita, lá ia ele junto. Se virasse para a esquerda, ia também.  E falava. Como falava. Queria ser engenheiro, médico, advogado… Disse que um dia, teria uma casa. Mas não casa comum. Casarão. Desses cheios de quartos e banheiros. Teria também terras. Gado, cavalos e um carro lustroso.
Pelo que dona Lia se lembra, Damião lhe avisou que ficaria pouco tempo na cidade. Estava indo morar na casa de um primo em São Paulo, arrumar emprego num banco e ganhar muito dinheiro. Prestou atenção, fascinada, às histórias que o rapaz lhe contava.
Depois daquele dia, passou então a escapar todas as tardinhas para encontrar-se com Damião na entrada da cidadezinha. Num dia, ele apareceu carregando flores. Deu-as à Lia. Flores. A primeira coisa que Lia ganhava na vida além de perdas, dores, socos e murros.
Na afobação, abraçou-o em agradecimento. Damião, nada bobo, prendeu-a pela cintura, impedindo que escapasse, e tascou-lhe um beijo na boca.
– A senhora gostava dele?
Dona Lia diz que sim. E lamenta nunca mais tê-lo visto depois daquele beijo. Tudo aconteceu muito rápido. Despediram-se, como sempre faziam quando o sol começava a sumir. Damião então veio com uma conversa de que ela deveria encontrá-lo ali no dia seguinte, sem falta; ele tinha uma surpresa. “Que Surpresa?”, inquietou-se ela. “Surpresa é surpresa.”, respondeu Damião.
Ela prometeu que lá estaria. Mas não podia imaginar que sua vida tomaria outro rumo naquele mesmo dia. Quando voltou para a fazenda, percebeu que tinha visita para os patrões, porque havia um carro estranho estacionado lá fora. Ela se recorda de a patroa ter ido até a cozinha, atirado um vestido em sua direção e ordenado que o colocasse e fosse para a sala, ligeira.
Obedeceu. Dona Adalfrida, então, a levou para a varanda, onde o padre, seu Siqueira e um homem desconhecido fumavam.
– Tá aqui a menina, seu Antônio – avisou a patroa.
O homem, segundo dona Lia, era rechonchudo e tinha a cara rosada. Ele a olhou bem, pediu que ela abrisse a boca para ver se tinha todos os dentes. Depois, falando com dona Adalfrida, disse que a aceitava o casório.
– A muiê dele tinha morrido de parto e ele queria uma mais moça. – conta dona Lia
Assim que percebeu que queriam fazê-la se casar com aquele sujeito desconhecido, tentou escapar. Mas não teve jeito. Um capanga do patrão atravessou-lhe o caminho a tempo, impedindo a fuga. Arrastou-a de volta a casa.
– Eu levei muita sova. – diz ela, explicando que a patroa avisou que por bem ou por mal ela haveria de se casar.
Casou-se, por fim. No dia seguinte, sem vestido branco e com a pele toda marcada de bordoadas. Quando partiu para a cidade de Barretos, interior São Paulo, onde o marido morava, o sol já se punha.
– Lembro da Sebastiana olhando pra mim de longe. – diz.
– Então a senhora não foi ver o Damião na estrada? Foi neste dia que marcaram de se encontrar, certo?
Ela responde que sim. E conta que partiu com pensamento lá na estrada, onde Damião, talvez, ainda a esperasse com a tal da surpresa.
– Sô viúva, graças a Deus! – ergue as mãos para o alto, demonstrando muito alívio. Pergunto sobre Antônio. Ela faz uma careta e diz que sempre o odiou. Sempre.
Viveu com ele em Barretos por muito tempo. Tiveram sete filhos, quatro meninos e três meninas. Sofreu. Apanhou. Foi humilhada. Quando ficou viúva, mudou-se para a capital com a família. Depois avisa que prefere não falar muito sobre ele. Não insisto.
De repente, percebo que dona Lia deve estar com a garganta seca. Havia falado muito.
– A senhora não acha melhor tomar um pouco de água?
Ela gosta da ideia. Mexe-se no banco e torna a enfiar os pés nas sapatilhas. Ajudo-a se erguer.
– Se eu não molho o gogó o pigarro fica preso aqui, ó – aponta para a garganta.
Delicadamente, oferece a bochecha para um beijo de despedida e, por último, a mão, forte e áspera, para um aperto. Caminha devagar em direção ao bebedouro, do outro lado do galpão.
Para trás, deixa o apequenado banco, testemunha muda de sua história.

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Crédito da imagem: Israel Dias de Oliveira

Capítulo do livroFios Soltos: Memória de idosos

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